O TROPEÇÃO
DA GOL NAS ROTAS INTERNACIONAIS
Depois que a Varig encerrou
o quarto trimestre de 2007 com a perda de US$ 64 milhões, a Gol se deu conta
que voando para o exterior a sua afiliada estava pisando num terreno
escorregadio, e que os caminhos internacionais para chegar ao lucro eram bem
mais complicados daqueles percorridos com sucessos nas rotas domésticas. Anos
seguidos de lucros estavam sendo ameaçado por fatores novos: desde a colisão de
seu Boeing com o jatinho pilotado pelos americanos, que sem duvidas teve causas
fora do controle da Gol, a sombra das vítimas inocentes parecia obscurecer os
horizontes outrora brilhantes da empresa, envolvida em seguida em atrasos e
cancelamentos que enfureceram seus usuários. E ao longo de 2007, com o custo do
querosene de aviação subindo, as receitas internacionais em dólares sempre
menos consistentes para cobrir os gastos domésticos em reais, alteraram suas
previsões iniciais e cortaram os resultados do balanço anual, cujo último
quadrimestre, devido às perdas com os vôos internacionais seus e da VRG, fechou
no vermelho por US$ 51 milhões.
E´ fácil imaginar o espanto provocado pelos
acontecimentos
Diante dessas resumidas
considerações, a decisão de se retirar das rotas européias e de suspender o
plano de vôo para os EUA encontra total apoio. Se é verdade que “errare humanum
est”, insistir no erro teria sido catastrófico. Mas os acionistas bem
informados não perdoam à Gol que suas diretorias tenham errado dessa maneira e
demonstraram sua insatisfação se desfazendo de milhares de ações, fato que
levou a Gol a cogitar de fechar seu capital.
Revendo o acontecido e
pensando nas conseqüências, a partir da compra da Varig até a suposta
elaboração de um esquema de rotas internacionais, surge a dúvida de que o
sucesso nos vôos domésticos criou na Gol o convencimento de que poderia
repeti-lo nas rotas internacionais, sendo suficiente apresentar a velha Varig às
congêneres, como seu prestigioso cartão de visita. Faltou a avaliação das
incógnitas de vôos para destinos desconhecidos e houve irracional otimismo
sobre as chances de sucesso imediato, aparente ignorância dos custos
operacionais de vôos long haul para o exterior, agravados pelos “custos Brasil”,
e desconsideração do prestígio e da força das companhias que estavam sendo
desafiadas, opondo a equipamentos da última geração os semi-obsoletos 767. Na
indústria do transporte aéreo ninguém sobrevive sem ter antes equacionado essas
questões, a não ser que esteja disposto a continuar investindo e a perder
dinheiro até encontrar paliativos, quais a assinatura de joint-ventures para,
mais tarde, sair da posição de inferioridade oferecendo os 777 ou outros
modernos equipamentos. Pode ser afirmado, todavia que, com um avião como a 767,
o 53% de aproveitamento médio nos vôos internacionais operados pela Varig representava
um início bastante positivo, enquanto as estrangeiras estavam com 80% ou mais,
evidenciando que apesar do prestígio da VRG, tendo que pagar tarifas parecidas,
muitos usuários preferiam escolher os melhores aéreos.
Uma Gol vitoriosa nas rotas
internacionais, da mesma maneira como se transformou no símbolo nacional de uma
aérea ágil e rentável, precisava de algo mais que a benção do Planalto e os
aplausos da imprensa, inclusive internacional, depois da obscura motivação que a
levou a adquirir da VarigLog uma Varig que, descartados os bilhões de dívidas,
de valioso possuía apenas o nome e a prestigiosa tradição. O preço pago poderia
ter sido bem menor se a Gol tivesse concorrido no leilão anterior, inspirada
pela intenção de competir e bloquear o avanço da Tam e pelo calculo errado de
um sucesso fácil. Parece que não houve a hipótese de que voar para o exterior
não repetiria o sucesso de curto prazo dos vôos low-fare (o quase) pelo Brasil,
operados com aviões novos em folha e, principalmente, com gastos controlados,
fruto de um preciso programa low cost. Assim mesmo, lucros a parte, no mercado
doméstico a Gol ainda luta para chegar a 40% de participação, talvez porque agora
seu serviço de bordo a bom preço atrai menos passageiros, ou porque a Tam tem
uma imagem mais consolidada, é mais agressiva, aplica melhor o marketing, e
está contando com a experiência de um grupo selecionado de executivos que, com
seu novo presidente David Barioni, há pouco tempo deixaram a rival.
Estatisticamente, com sua
frota atual, que aumentará de uma só unidade neste ano, a Gol precisaria de um
aproveitamento médio de 77% para captar os pontos de vantagem da Tam no mercado
doméstico. Mas fechou o trimestre passado com 65% de l.f. e, somando sua
participação à da Varig, o market share conjunto totaliza apenas 41,73%. E
devido aos problemas de reorganização de suas rotas, a época não parece propícia
para alcançar a Tam, enquanto se acumulam novas dúvidas sobre o papel que no
mercado doméstico terá a nova aérea que está sendo organizada por David Neelman.
Assim, por enquanto, a VRG
Internacional ficou com apenas a América do Sul para competir com Tam, Lan
Chile e Aerolineas Argentinas, nas rotas onde a Gol não voa mais. Aliás, a existência
de duas aéreas do mesmo grupo operando em setores diferentes, lembra algo
parecido feito pela Lan, ao segmentar em duas empresas homônimas seus vôos domésticos
e internacionais. No caso da Gol, há duvidas sobre o equilíbrio financeiro das
operações da VRG sem vôos internacionais de longa distância, fato que poderá
causar novos cortes de gastos e demissões.
E´ impressão geral que passará
muito tempo antes que a Gol pense novamente em operar vôos para a Europa ou
iniciar a rota para Nova York. Sem previsão de compra de aviões maiores e ainda
sem decidir se ficará com o Dreamliner da Boeing (cuja entrega poderia ocorrer
somente após 2012) a Gol está devolvendo este ano 27 antigos Boeing 737-300 e
terminará 2008 com uma frota de 31 aeronaves 737-700, 17 do modelo 737-800 e 24
Boeing 737-800 SFP, além dos atuais 767-300 da VRG. Mas é provável que na nova
situação, se realmente a empresa cogita voltar no médio prazo à Europa, será
obrigada a alterar sua encomenda à Boeing de 34 modelos 737-800 NG, inserindo
nela a compra ou o leasing de uma pequena frota de aviões maiores.