O DUVIDOSO MITO DOS TURISTAS AMERICANOS

 

Antes e depois da segunda guerra mundial os americanos ganharam um imerecido prestígio, puxado pelas fantasias dos jovens. Por mérito de sua indústria bélica poderosa e das fortunas acumuladas desde a época em que conquistaram as terras dos índios, o seu país se havia transformado na meta predileta das novas gerações. Desempregadas em pátria, estavam adorando a perspectiva imediata de se tornarem lavadoras de pratos nos restaurantes dos EUA. Aos milhões, solteiros e inteiras famílias emigraram, legal ou clandestinamente, para as grandes cidades do chamado novo mundo. Deles, uma minoria até conseguiu ter sucesso, no comércio, na indústria e ou na política.

 

No último após guerra, tudo tinha aparências frenéticas além mar, ao som do jazz e dos motores dos carros Ford, e nelas os jovens da Europa e da América Latina, aos milhões, viram na cor verde dos dólares o maior sonho de suas vidas. Pena que depois de Roosevelt, que havia tirado as finanças do país do buraco e levado a bandeira de “stars and stripes” ao triunfo, vieram os erros de Truman e de outros medíocres presidentes, que tudo permitiram em nome da freedom”, da democracia e de outras invenções capitalistas. Delas, a globalização foi o último achado, para abrir os mercados do mundo ás falcatruas de uma elite financeira, formada nas universidades mais famosas, que encheu os bolsos e deveria agora encher as celas das prisões, pelos crimes comedidos abusando do dinheiro real e fictício das economias populares.

 

Nesse aglomerado de raças e ambições, regado ás vezes por relâmpagos de genialidade, cresceram e se multiplicaram os turistas americanos. Em maioria mal trajados, de calças curtas, tênis e meias brancas, no início invadiram as cidades da Europa, onde aprenderam a desfilar diante das maravilhas de um passado inimitável, sem entenderem suas mensagens culturais. E mais tarde, em casa, confundiam nas fotos tiradas apressadamente em máquinas Kodak obsoletas, lugares históricos e nomes de artistas, com a irreverência digna de seus fast-foods prediletos. Mas esses emigrantes temporários, levavam dólares consigo e, por isso, se tornaram objetos de desejos para hoteleiros e para operadores de tours, prediletos por cambistas e motoristas de táxis sem escrúpulos, que do idioma inglês pouco conheciam (e ainda pouco sabem) além da taxa do dia e do caminho mais longo do aeroporto ao hotel.

 

A favor deles que, com todas as exceções obvias, representam parte considerável dos fluxos turísticos para o país, segmentos inconformados do trade nacional lutam, há anos, para conseguirem que sejam dispensados do visto de entrada no Brasil. Apesar de existir um Estatuto do Estrangeiro (Lei 6.815/1980) que prevê essa dispensa somente para turistas de países que concedem aos brasileiros tratamento idêntico. Mas não é o caso dos Estados Unidos, cujo governo acaba de incluir na lista dos países da União Européia dispensados de visto nomes de republicas sem tradições turísticas, cujos emigrantes frequentemente clandestinos são atualmente combatidos pela Interpol, por ameaçarem a segurança pública de várias cidades européias.

 

Apesar disso, numa edição especial da Folha de Turismo, podem ser lidas afirmações do presidente da Formatur, fórum nacional que reúne executivos estaduais de turismo, contrárias á exigência de reciprocidade de visto, definindo essa política brasileira como “anacrônica e pequena” e declarando que ela deveria ter sido revista há muito tempo pelo Ministério das Relações Exteriores. Anacrônico, segundo o dicionário Aurélio, significa “que está em desacordo com a moda, o uso, constituindo atraso em relação a eles”, ou “avesso aos costumes hodiernos; retrógrado”. Por isso, segundo o entrevistado pelo jornalista Mario Brizon, dada a sua necessidade, a revisão dessa exigência nem precisaria ser uma decisão do Congresso, “agora, principalmente quando se aumentam os vôos dos Estados Unidos para cá.....”

 

A parte o fato que o aumento dos vôos, que teve o apoio total das aéreas americanas, não estava condicionado á abolição do visto, vale a pena transcrever a resposta dada pelo presidente Lula á pergunta “Por que o Brasil ainda persiste com o conceito de reciprocidade ?”, no contexto de uma entrevista publicada na mesma edição especial da Folha de Turismo . O presidente afirmou: “A reciprocidade é um principio fundamental do Direito Internacional....”. E o diretor de Turismo de Lazer e Incentivo da Embratur, José Luiz da Cunha, também entrevistado, depois de afirmar que o visto “não é um impedimento final para que o turista venha” acredita que para resolver a questão bastaria a flexibilização, ou seja a facilitação na concessão do visto, através de um processo rápido ou pela internet .

 

Mas entre prós e contras, a proposta mais objetiva e prática é aquela contida no projeto apresentado na Câmara de Deputados pelo parlamentar Otávio Leite. O deputado federal é o mesmo que participou ativamente da Comissão de inquérito sobre a crise da Varig e que sempre se dedicou á procura de soluções para os problemas da indústria turística. O projeto é simples e não atinge a reciprocidade. O visto seria emitido nos aeroportos brasileiros de chegada, mas os viajantes americanos teriam a obrigação de preencher previamente um formulário e de remetê-lo online, para ser checado, ao FBI americano e á Polícia Federal. Ao desembarcar, o passageiro já teria seu nome listado e deveria apenas efetuar o pagamento da taxa para receber o visto. O tempo a ser gasto no guichê seria mínimo, se comparado com aquele exigido no Brasil para os viajantes nacionais receberem o visto americano ou, nos EUA, para a remessa do passaporte americanos ao Consulado brasileiro mais próximo e sua devolução, prévio pagamento da respectiva taxa.

 

Mas há uma dúvida do escrevente sobre qual seria o efeito prático dessa facilitação. De fato, não está claro como em 2007 desembarcaram no Brasil (segundo os dados estatísticos da Embratur) cerca de 700 mil turistas americanos, se nesse mesmo ano as representações diplomáticas brasileiras (segundo o Ministério das Relações Exteriores) concederam apenas 144.895 vistos para turistas procedentes dos EUA entrarem no país. Os restantes (78,6%) seriam residentes nos EUA portadores de passaportes de outras nacionalidades isentas de visto, ou o total inclui os brasileiros?