NOVAMENTE O
MEDO DE VOAR ?
Depois dos sustos relatados
pela imprensa em 2006 e 2007, parecia que as providências da Infraero e da Anac
haviam restabelecido controles que garantiam a segurança a bordo dos aviões
comerciais. Permaneciam críticas procedentes do exterior, de organizações de
classe, ligadas às atividades dos controladores de vôo ou aos procedimentos
para garantir aterrissagens tranqüilas. Elas não gostaram das revelações divulgadas
no Brasil, depois da colisão que vitimou o Boeing da Gol e, ainda menos, dos
erros que causaram no aeroporto de Congonhas a pior carnificina registrada pela
aviação do país. Às criticas feitas às falhas dos controladores brasileiros,
foi acrescentada a constatação de que, além de pouco treinados, a maioria deles
não estavam em condição de dialogar em inglês com os pilotos das aeronaves.
Segundo a Organização de
Aviação Civil Internacional, Oaci, na classificação do domínio do idioma nas
torres de controle do país, o setor estaria no nível pré-elementar. Com isso, o
Brasil ocupa também a terceira posição tanto na lista dos indicadores da
gravidade do risco de colisão (maior risco potencial), como na avaliação de
probabilidade de incidentes, considerada remota (uma vez em poucos meses), em
contraste com o “extremamente improvável” (uma vez a cada 30 anos) e com o
“improvável” (uma vez a cada 3 anos) das duas primeiras categorias.
Lembramos que, depois de
longa espera, outro ministro da Defesa foi nomeado e logo exigiu providências,
planos de curto e médio prazo, dinheiro para investimentos no setor. Poucos
meses mais tarde, o ministro Jobim se congratulou pelo fato que o problema dos
atrasos e dos cancelamentos de vôo havia sido praticamente resolvido, ao mesmo
tempo em que a estrutura aérea brasileira havia restabelecido índices médios de
segurança de acordo com as exigências internacionais. Entretanto havia sido
trocado o presidente da Infraero e obrigado a se demitir o presidente da
Agência Nacional de Aviação Comercial, Anac.
Mas de repente a campainha
de alarme voltou a tocar. Há dias foi divulgado pela Força Aérea Brasileira,
que do total de 3.052 controladores de vôos que atualmente atuam no país,
apenas uns 350 conseguiram atingir o nível de fluência em inglês exigido pela
Organização de Aviação Civil Internacional, Oaci. Portanto, pouco mais de 10%
deles estão habilitados para, supostamente, se comunicarem com os comandantes
de Boeing e Airbus, para transmitir-lhes novas instruções de emergência ou para
receberem pedidos urgentes de esclarecimentos sobre a rota ou o nível de vôo,
caso o plano original elaborado antes da decolagem necessite ser alterado. A
mesma FAB divulgou que entre 2003 e 2007 ocorreram dez incidentes de tráfego
aéreo, em razão de falhas de comunicação
Em 60 documentos e
relatórios confidenciais, aos quais o jornal teve acesso, a partir do segundo
semestre de 2007 e ainda em 2008, foram registradas várias quase-colisões e
incidentes documentados no livro de ocorrências ou revelados nas telas dos radares.
No final de janeiro, por exemplo, um Boeing da Gol e um Airbus da Tam entraram
em rota de colisão quando iniciavam o procedimento de descida
Ou aconteceu que as
instruções dadas por um estagiário a um comandante da Gol o confundiram em
relação à posição que havia sido determinada. Outra colisão foi evitada quando
disparou o sistema de segurança de um avião da Trip que havia decolado de
Cuiabá, e em 20 de março deste ano, um Boeing 737 da Gol que se aproximava de
Belo Horizonte, foi autorizado a iniciar a descida para um nível inferior, sem
que o controle detectasse que outro 737 da Varig se encontrava bem abaixo dele,
até o momento em que o sistema anticolisão disparou.
Além das falhas dos
controladores, há outras também bastante sérias causadas pelos equipamentos.
Nas telas dos radares aparecem imagens de aviões que não existem, há zonas
cegas que impedem o monitoramento do vôo, ainda há equipamentos com defeitos,
inclusive o ILS, indispensável para orientar com precisão o pouso. Com tudo
isso ameaçando a segurança dos vôos em território brasileiro, não surpreendem as
duras críticas recebidas da Ifatca (Federação Internacional das Associações dos
Controladores de Tráfego Aéreo), depois da inspeção feita ao Cindacta-1 de
Brasília. Um seu representante declarou que, se o país não realizar providência
significativas “o próximo acidente já está “planejado”, faltando apenas dizer
quando e onde irá acontecer”.
Diante destes comentários, é
difícil entender o que está faltando ou se a segurança aérea ainda não recebeu
toda a atenção prometida. Em particular, se houve demora nos investimentos exigidos
por uma nova e eficiente estrutura setorial.. E se as providências foram tomadas, e ainda
existem falhas, é urgente que elas sejam reduzidas ao mínimo, para que fique
“extremamente improvável” que elas representam uma ameaça à segurança dos
passageiros.
Em caso contrário, os mais
avisados terão o direito de voltar a ter medo de voar em rotas do país. Pois não
é suficiente acreditar que Deus é brasileiro, para ignorar a previsão de um técnico
e ficar torcendo para que os “quando e onde” nunca se verifiquem.