NORDESTE, QUASE UM ÉDEN TURÍSTICO

 

Ninguém ainda contou como e quem, no universo turístico, descobriu o Nordeste Brasileiro. Não está muito longe no tempo a época em que o Rio de Janeiro era o símbolo e o destino principal do turismo nacional, meta obrigatória para os estrangeiros que visitavam o país. Estatísticas da Embratur, falhas como costumavam ser nos anos 90, atribuíam á Cidade Maravilhosa cerca de 38% desse tráfego, mas é provável que esse índice fosse inferior ao real. Aliás, como nossos leitores sabem, todas as estatísticas anteriores á criação do Ministério do Turismo, realizada neste governo, eram fruto de exercícios contábeis feitos na bola de cristal, partindo de flashes inconsistentes sobre o número de desembarques no país de passageiros procedentes do estrangeiro. Que incluíam um número nunca calculado de “retornos” de residentes no Brasil.

 

Naqueles anos, quem queria ir a Salvador da Bahia, devia antes desembarcar de seu vôo internacional no Rio ou em São Paulo, para depois embarcar para lá numa conexão nacional. Assim, cerca de 4 mil km a mais deviam ser voados pelo visitante, numa ida e volta que ao ser revelada desanimava muitos turistas potenciais e onerava o preço da passagem. Até que apareceram os primeiros vôos fretados procedentes da Europa, operados por aéreas menores numa base quinzenal. Eles traziam grupos que em média ficavam por duas semanas percorrendo os roteiros nordestinos, para depois voltar pela mesma companhia, num avião do qual desembarcava outro grupo. Isso ajudou a região a desenvolver uma razoável estrutura turística, sob a orientação da eficiente Secretaria de Turismo da Bahia. Mais hotéis, mais resorts, mais estradas, foram abertos, com índices de utilização nem sempre ideais. Esse turismo dependia principalmente da vinda de europeus, turistas sazonais que costumam dedicar apenas poucos meses do ano ás viagens internacionais para regiões tropicais, da América do Sul ou da África. O fluxo começou a mudar, abrangendo períodos mais extensos, quando os turistas de outros países se juntaram aos europeus.

 

Na evolução, várias pequenas empresas perderam seus clientes de vôos charter e novas transportadoras regulares se inseriram no movimento para o Nordeste, que gradualmente aumentou seu leque de cidades atraentes para os turistas estrangeiros. De todas, a empresa que até agora melhor planificou o seu ingresso em capitais nordestinas foi a Tap, pois pela primeira vez entendeu que a formula do sucesso era investir não somente no tráfego procedente da Europa, mas também na demanda dos residentes no Nordeste, que até então não tinham outra opção, a não ser uma longa viagem ao Rio ou São Paulo, ida e volta, para embarcarem num vôo internacional. O plano da aérea portuguesa de operar vôos regulares, se desenvolveu com a crise da Varig e com a suspensão de suas freqüências para Portugal, tendo como ponto de partida o convite feito pelo governo lusitano a três executivos brasileiros, recém saídos do tumulto administrativo que naquela época afligia a empresa de bandeira, para integrarem em Lisboa a alta administração da Tap. Eles conheciam as carências da rede operada pela companhia brasileira e sabiam da existência de mercados, não somente nordestinos, cujos viajantes deviam recorrer ás conexões nacionais para alcançarem num vôo internacional qualquer destino no exterior. Numa seqüência precisa, não podendo aumentar o número de freqüências de/para São Paulo e Rio de Janeiro, vinculadas pelo acordo bilateral, os Airbus da Tap chegaram a outras capitais de estados do país, com destaque para os do Nordeste.

 

O potencial do Nordeste saiu assim da concentração baiana, para incluir nas opções de viagens dos estrangeiros outros destinos, menos desenvolvidos em sua infra-estrutura turística, mas abertos ao esforço promocional para valorizar suas atrações e movimentar os investimentos necessários para comercializar-las. E mais um passo á frente será dado com a criação de uma rede de conexões entre aquelas capitais, em fase inicial de realização, dentro de um projeto mais amplo de integração regional. Ele deverá favorecer a melhoria aeroportuária, a construção de novos hotéis, de estradas e a valorização das atrações locais. Aos poucos Salvador deixa de ser a única referência turística do Nordeste, passando a fazer parte de uma enorme área, cujas florestas, fauna, rios, tradições estão saindo dos cartões postais para ficarem gravados nas câmaras dos turistas e divulgar o “novo mundo”.

 

A grande evolução, que agora apresenta ao turismo internacional a região do Norte e Nordeste como se fosse um país a parte, desligado do resto do Brasil, com suas rotas e suas atrações, não exclui a necessidade de continuar dedicando grandes cuidados á regulamentação das atividades turísticas locais, ás promoções, ao atendimento aos visitantes, aos serviços em geral. Nos comentários que os visitantes deixam escritos nos formulários que se encontram nos quartos de hotéis, podem são lidas críticas que em sua maioria devem ser tomadas a sério, pois se o seu número crescer e são divulgadas no exterior podem desviar do Nordeste outros turistas. É obvio que o ideal seria encontrar sempre arrumadeiras de qualidade, lençóis brancos como neve, guias com suficiente conhecimento de idiomas, comida á altura da fama da culinária regional, ônibus em condições ideais para os transfers ou para as excursões, ambientes refrigerados. Mas eles são alguns dos itens quase permanentes da lista que, antes da vinda dos estrangeiros, resumia as queixas dos visitantes nacionais e que são encontrados também no Sul, ou em cidades turísticas do exterior. Talvez seria de competência do Ministério do Turismo, nesta época de crise mundial que pode dispensar outros investimentos, organizar com a colaboração das secretarias de Turismo locais, treinamentos setoriais, cursinhos alfabetizantes para quem precisa de outros idiomas, aulas de boas maneiras, naquelas cidades onde, ao lado da prodigalidade da natureza, caberia maior consistência técnica e educacional de parte do elemento humano que atua nos vários setores.

 

Agora que existem as ligações aéreas, que os hoteleiros investem para oferecerem mais aposentos, que as infra-estruturas estão em fase de crescimento para atender o aumento da demanda, que o dólar voltou a um câmbio conveniente para os estrangeiros, sim agora chegou o momento de trocar, no Éden Nordestino, a eventual improvisação pelo profissionalismo que a indústria exige, por ser complementar das atrações oferecidas aos visitantes e por representar o diferencial que pesa na escolha de um destino turístico.