NAS ASAS DA
ESPERANÇA
Acabei de ler os primeiros
resultados de uma pesquisa feita entre os aposentados do Aerus, para verificar
até que ponto a suspensão ou redução dos pagamentos mensais alterou suas vidas.
Como previsível, a grande maioria está enfrentando graves dificuldades
financeiras e teve que mudar seus hábitos e renunciar ás pequenas conquistas que
havia alcançado depois de décadas de trabalho. Na pesquisa, vale notar, estão
faltando as respostas de quem não possui um computador ou teve de desistir da
internet, para dedicar o dinheiro que pagava a taxa mensal a outras
necessidades, mais urgentes, ou talvez vitais.
Esses milhares de seres
humanos haviam investido pequenas economias mensais nos Planos I e 2 do fundo
de aposentadoria, visando uma velhice mais tranqüila, dias serenos confortados
pela possibilidade de satisfazer suas exigências mínimas de vidas. Mas foram
frustrados pela suspensão inesperadas dos pagamentos ou pela redução dos
valores que ainda recebem, em muitos casos tão pequenos que em nada contribuem
aos gastos diários. Poucas centenas de reais ao mês, ás vezes equivalentes a
meio salário mínimo. Sem contar a amargura, talvez ainda mais profunda, dos
funcionários ainda na ativa, que haviam pago durante anos sua contribuição e de
repente, além de perder o emprego, foram informados de que, por lei, somente
depois de atendidas as necessidades dos participantes poderiam esperar de
receber de volta as quantias pagas ao Aerus. Numa das reuniões no Sindicato
Nacional dos Aeronautas, todos os que lá estiveram lembram as lacrimas que
corriam nas faces de ex-secretárias de meia idade, que haviam ficado sem
trabalho e sem suas economias, confiadas mensalmente ao fundo de aposentadoria
que estava agora sob intervenção do governo.
Um drama que comoveu até
deputados e autoridades de Brasília. Um episódio vergonhoso de má administração
do dinheiro alheio, agravado por omissões e abusos, enquanto a velha Varig
cumpria o calvário de uma falência anunciada, nunca oficializada, mas obvia,
cruel. Falência decretada pela incompetência de muitos seus dirigentes, que
terminou no minueto da venda de seus ossos á VarigLog e das sobras de seu
prestígio á Gol. E que deu em mais duas tragicomédias, uma com a participação
de atores chino-americanos outra interpretada por executivos nacionais, que
haviam sido supostamente habilidosos no gerenciamento de uma low-fare de
sucesso. Enquanto isso, duas ações judiciais corriam pelos corredores dos
tribunais, numa escalação firme que as levariam até á austera aula do Supremo
Tribunal Federal. Onde atualmente se encontram, esperando que em fevereiro,
antes do Carnaval, sejam julgadas.
Antes houve liminares
concedidas e suspensas, intervenções de deputados amigos e de ministros. Tudo para
conseguir que, de uma maneira ou da outra, o Aerus, ou seu substituto, volte a
dispor dos R$ 13,5 milhões mensais necessários para pagar as aposentadorias
devidas. São cerca de 150 milhões de reais num ano, soma relativamente modesta para
reparar a injustiça que jogou nos limites da miséria cerca de 10 mil pessoas,
num país onde muito mais se investe em aumentos salariais aos funcionários, ou
se pretende gastar abrindo as portas dos municípios do país a mais 7.854
inúteis vereadores, essas personagens apagadas, selecionadas previamente em
reuniões partidárias entre amigos e ás vezes eleitas com a cumplicidade de
gratificações ilícitas.
De repente, em 19 de
dezembro, veio a esperança de ver as duas ações solucionadas de uma vez. Junto
com a convicção de que a sentença sobre a indenização devida á Varig será a
favor da empresa, como já foi aquela que entregou R$ 750 milhões á Transbrasil
e serviu para facilitar a sua falência. No caso Varig não há mais esse
problema, pois parte do dinheiro irá á herdeira das dívidas, para efetuar pagamentos
simbólicos aos credores e outra ao Aerus, para reconstituir um capital que, nas
mãos de gerentes competentes, deverá gerar mais fundos para satisfazer até o
falecimento os direitos dos aposentados e reembolsar quem tudo perdeu.
Agora as esperanças dos
aposentados navegam nas asas amigas abertas pela ministra Cármen Lúcia, que
nestas semanas de recesso estará trabalhando para oferecer aos colegas do STF,
na reabertura do plenário, um relatório completo sobre os pontos essenciais da
ação movida pela Varig, juntamente com seu voto. E mais um motivo para levantar
essas esperanças, veio quando outro ministro, Eros Grau, depois de tomar vista
da ação paralela do próprio Aerus, levada com competência até o STF pelo
advogado Castagna Maia, se comprometeu de trazer o processo ao plenário no
mesmo dia em que o STF julgará o pedido da Varig. Isso pode significar que, se
a ação principal sair vitoriosa, será possível que o Supremo aceite a
solicitação do Aerus, para que haja o adiantamento dos pagamentos mensais das
aposentadorias, cujo valor será descontado oportunamente do valor total
destinado ao Fundo, depois de concluídas todas as tramitações burocráticas.
Agora, talvez, chegou a hora de alimentar as melhores esperanças para 2009.