MEDO DE
VOAR
Entre os textos de Adilar André Cossa, redigidos depois de ter passado
cerca de 27 anos na Varig, dos quais mais da metade como engenheiro de vôo, há
muitos capítulos de conteúdo técnico, dedicados em particular ao Electra e ao
DC-10, com longas descrições dos sistemas de treinamento da empresa, inclusive
quando foi montado e utilizado o primeiro simulador. O relato que publicamos a
seguir, está entre os mais originais e acessíveis para leitores não
especializados.
O medo de voar de muitos passageiros é
entendido e respeitado pelos tripulantes. Embora desde tempos imemoriais o
homem tenha sonhado em voar, somente o conseguindo há pouco mais de cem anos,
voar é algo que vai totalmente contra a sua natureza. Tem ainda o fato que, a
partir do momento que as portas são fechadas, a segurança dos passageiros está
sob responsabilidade de pessoas estranhas, e eles estão integrados á maquina,
sem possibilidade de pular fora, caso algo errado aconteça.
Todo avião
voa respeitando as leis da física, porém para algumas pessoas voar ainda é
considerado como algo mágico ou coisa de bruxaria. Assim, por estes e outros
motivos, quando algum passageiro entra em pânico antes da decolagem, sempre são
feitas algumas tentativas de acalmá-lo, primeiro pelos comissários depois pelo
comandante ou outro tripulante. Algumas vezes ele é levado até a cabine de
comando, para mostrar-lhe que não tem mistério nem perigo, e ele se acalma, embora
meio desconfiado, cria coragem e aceita permanecer a bordo. Nos raros casos em
que o situação piora ele não é forçado , mesmo que o retorno ao portão de
embarque implique em atraso e consumo de algumas toneladas a mais de
combustível. Como acontece com aviões de grande porte em aeroportos de muito
movimento, onde a perda do lugar na fila de decolagens acaba custando muito
caro para a empresa.
Quando alguém
entra em pânico durante o vôo, os procedimentos são os mesmos, porém a situação
é mais delicada devido à possibilidade de outros passageiros serem
"contagiados", podendo provocar a necessidade de um pouso não
programado. Uma vez, voltando de extra após efetuar um vôo cargueiro para
Frankfurt, assim que o MD11 decolou notei que uma passageira começou a se
movimentar de um lado para outro da cabine e a conversar com os comissários. Ela
somente ficou no seu lugar durante o jantar, pois os carrinhos de bebidas nos
corredores dificultam a movimentação de passageiros. Pela continuidade de sua
agitação percebi que estava apavorada. Embora na ocasião eu estivesse viajando
apenas como passageiro, entrei em contato com os atendentes, e eles me disseram
que a referida pessoa tinha tido a premonição de que este avião iria cair. Cientificado
da situação, o comandante solicitou que tentassem acalmá-la, porém sem
resultado. A situação foi ficando tensa, pois outros passageiros perceberam o
que estava acontecendo. Nesta altura, já tinham se passado cerca de quatro
horas de vôo, e como estávamos sobre o Atlântico o vôo prosseguiu. Mas quando
estávamos a cerca de três horas do pouso o comandante informou que devido ao
alto consumo de combustível teríamos que fazer um pouso técnico em Recife para
reabastecer.
Assim que
pousamos a passageira armou outro tumulto, insistindo em desembarcar, o que
normalmente não seria possível. Mas neste caso, em vista dos problemas foi
acionado o pessoal de terra para levá-la, com a respectiva bagagem, até a
rodoviária, onde ela apanhou um ônibus para o Rio. Isto aumentou o atraso do
vôo em cerca de uma hora. Quando pousamos no Rio dava para perceber um sinal de
alivio no semblante de muitos passageiros, que haviam sido contaminados pelo
pavor da madame.
Em outra
ocasião, assim que o Electra fechou as portas, um
passageiro entrou em pânico solicitando aos comissários desembarcar. Porém,
como o push-back já tinha iniciado, o convidaram para se dirigir á cabine de
comando, com o intuito de acalmá-lo e assim prosseguir o vôo sem necessidade de
retornar. O comandante e o flight, após alguma conversa conseguiram contornar a
situação e, para mostrar que não havia qualquer perigo, lhe ofereceram de
permanecer na cockpit durante o vôo. Ele foi acomodado no assento extra e assim
partiram com destino São Paulo. As condições meteorológicas na metade do
caminho pioraram, sendo necessário desviar de um paredão de CBs (tempestade de
verão), mas apesar disso a tempestade se fechou em volta da aeronave e a única
alternativa foi escolher um ponto menos ruim e atravessar o paredão. Os
passageiros e o convidado foram avisados que iria balançar um pouco, mas ao
entrar na tempestade o avião pulava como um cavalo selvagem. Enquanto
continuava a “lenha”, os pilotos ao procurar com os olhos o convidado, constataram
que ele tinha sumido mas, em alguns segundos, o descobriram enfiado debaixo do
banco extra, cujo espaço comporta no máximo uma criança de seis anos. No
desembarque ele saiu xingando todo mundo, dizendo que fora enganado e nunca
mais poria os pés em qualquer avião. Este episódio aconteceu com o F/E Amâncio.