O JOGO SUJO CONTRA A CHINA

 

A China está na mira do capitalismo mundial. Querem prejudicar a sua imagem apoiando de maneira indireta o boicote aos Jogos Olímpicos de Pequim, através de órgãos da imprensa que não detectaram os verdadeiros motivos dessa proposta e continuam dedicando espaço demais ao Dalai Lama e aos protestos dos monges do Tibete pelas ruas de Lhasa. Foram poucos, até agora, os Comitês Olímpicos que reagiram à altura, e por isso merecem destaques as palavras do presidente do CO Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman. Ele afirmou que “o boicote é um desrespeito aos atletas do mundo inteiro, que durante anos se prepararam com suor e sacrifício”. E fez bem o COI, Comitê Olímpico Internacional, em alertar os atletas de que “podem ser excluídos dos Jogos Olímpicos se participarem de manifestações contra a política chinesa em relação ao Tibete,” acrescentando que eles “tem o direito de não participar dos Jogos, caso não aceitem as regras, mas se competirem e ganhar uma medalha não terão que devolve-la”.   

 

Com todo o respeito aos monges e à causa que os motiva, não podemos ignorar que o problema do Tibete ficou por longos anos em “banho-maría” e voltou a ocupar lugar destacado no mundo político quase na véspera dos Jogos, depois que poderosos órgãos da imprensa internacional receberam de seus donos ordens para insuflar os nacionalistas tibetanos. A verdade é que a China incomoda as democracias ligadas ao sistema americano. Seu domínio crescente dos mercados mundiais, com exportações de US$ 1,22 trilhões, suas reservas de ouro e moedas estrangeiras na casa de US$ 1,31 trilhões, seu PIB à altura de 11,4% em 2007 e o volume enorme de seus investimentos, que chegou ano passado a 42,2% do PIB, preocupam os donos das finanças mundiais. Assim como suscitam fortes temores aos bancos, acostumados a se locupletarem com o dinheiro dos depositantes, mas que logo repassam aos clientes os erros ou as conseqüências das falcatruas de seus dirigentes; às fabricas incapazes de competir com os preços e, mais recentemente, até na qualidade de uma lista crescente de produtos chineses e, agora, até aos eternos organizadores de competições desportivas bilionárias, cujo brilho corre o risco de ser ofuscado pelo previsto sucesso das iminentes Olimpíadas.  

 

Há décadas que os governos chamados democráticos protegem suas indústrias impondo ônus às importações chinesas, ignorando o fato que muitas fábricas nacionais estão produzindo na China. Seus produtos chegam aqui com a etiqueta “made in Brasil”, para ganharem à custa dos operários chineses, pois o preço de produção seria bem elevado se feitos no país, onde todavia dariam trabalho aos operários nacionais. Nas reuniões sociais eles dizem que lá os operários trabalham como escravos ou dramatizam o fato que a China condena a morte os meliantes que, neste nosso mundo civilizado, são soltos com liminares ou hábeas corpus, Choram pelos monges perseguidos, mas evitam comentar, para não desagradar ao Tio Sam, as lacrimas das mães iraquianas ou palestinas, diante dos cadáveres de suas crianças inocentes.

 

Poucos admitem as vantagens que os operários chineses, mal pagos, proporcionaram e ainda proporcionam aos consumidores do mundo inteiro.

Ninguém pergunta, publicamente, quanto custariam milhares de produtos à venda em todo lugar, calculadoras, tecidos, relógios, rádios, calçados, peças de computadores, entre centenas de outros, se os chineses não os exportassem. Ou seja, se os consumidores ainda dependessem da avidez das Panasonic, Zenith, das Adidas ou da Microsoft, somente para citar nomes conhecidos, que lucram milhões sem reparti-los com seus operários, que ganham salários melhores dos colegas chineses, mas que deveriam receber muito mais, se comparados os preços de comercialização.

 

Por essas razões prevalentemente econômicas, que a habilidade promocional dos interessados esconde atrás dos supostos crimes héticos, humanitários ou sob títulos pomposos como aquele adotado pelo “Centro Tibetano para Direitos Humanos e Democracia”, comodamente instalado na Índia em “exílio” voluntário, a campanha contra a China assumiu recentemente uma veemência que visa ofuscar de antemão o show de organização e beleza criativa que os chineses estão acabando de montar para os atletas e turistas estrangeiros, aguardados em Pequim durante as Olimpíadas. Uma reação nada democrática, apenas um pretexto de impacto importado do Tibete, que nestes meses de crise americana serve também para mimetizar os crimes financeiros cometidos por executivos de elite, que canalizaram o dinheiro de clientes em investimentos de risco (não para eles) num verdadeiro assalto às poupanças nacionais.

 

As túnicas vermelhas dos monges, suas figuras magras e sofridas, estão sendo usadas para fins políticos, enquanto os trapos ensangüentados de outras etnias e os milhões de perseguidos por governos corruptos que dominam em países da África, continuam ignorados. Hoje são os representantes de 1,13 bilhão de chineses que enchem as manchetes com os relatos de suas crueldades. Mas a finalidade final do show tibetano é menos nobre. Ela pretende atingir objetivos não confessados, políticos e financeiros, na tentativa de frear uma “grande marcha” que, sem ser a de Mão, sem dúvida dentro de poucas décadas levará os chineses à supremacia mundial. Para atrasar essa marcha, vale tudo. E quando lhe convêm, Wall Street globaliza , inventa perigos, provoca a sensibilidade puritana dos ocidentais, abusa dos caducos princípios democráticos restantes, e tolera ações bélicas desumanas. Depois, o importante é salvar as aparências, encontrar algum símbolo do mal, um bode expiatório, esteja ele na Havana, em Pequim ou em Caracas.