INVESTIGANDO UMA TRAMA SINISTRA

 

Quem acompanhou os acontecimentos ligados à procura espasmódica de um comprador para a Varig S.A., deve lembrar que quando foi noticiado que um rico chinês de Macau queria a aérea brasileira para transformar suas aeronaves em cassinos voadores, a hipótese foi considerada teoricamente correta, pois as restrições legais à prática de jogos de azar em terra perdem sua eficácia quando as apostas são realizadas a 3 mil ou mais metros de altura. Falou-se, na época, das riquezas do chinês, mas havia normas vigentes para o setor aéreo que excluíam qualquer negócio que absorvesse mais de 20% de capital estrangeiro.

Assim, impossibilitada de se transformar num cassino voador, a empresa riograndense – cujos fundadores falecidos, diante de proposta devem ter estremecido nos túmulos - passou a ser disputada verbalmente por numerosos candidatos a compradores, donos de um interesse maior que seus capitais. Foi um festival de propostas, que confirmaram a existência de um amplo zoológico de indivíduos e de organizações vigaristas, algumas das quais tentaram tirar vantagem da situação pré-falimentar na qual a Varig se encontrava, depois que a aérea havia driblado seus credores, aderindo às exigências e vantagens de uma lei feita sobre medida para salvar do afogamento imediato as empresas inadimplentes. A aprovação pelo presidente da República da inclusão das empresas aéreas entre os beneficiários dessa chamada lei de falências, é um indício de envolvimento governamental na conjuntura aviatória que ainda não foi devidamente esclarecido.

 

Entretanto se revezavam na chefia da empresa, à procura de formulas salvadoras em nome de milhares de funcionários, (que na realidade ainda não eram ex-funcionários, pois não haviam recebido suas indenizações trabalhistas) os candidatos a lideres que sempre aparecem quando ainda existe a possibilidade de tirar proveitos. Listar nomes ou entidades que pretendiam oferecer a solução do problema de sobrevivência da Varig seria inútil, mas saibam que a maioria ainda circula e é prestigiada pela sociedade. Entre eles se destacaram na presidência da aérea representantes da própria Varig que, por algumas semanas ou meses, recitaram os papeis de prime donne, sem voz e sem repertórios a oferecer, para conseguir o aplauso de uma platéia frustrada, que ainda acreditava num final feliz.

 

Na conjuntura da época, entre tensões diárias de uma empresa voando sempre menos e se endividando sempre mais, sob a mira inflexível da Infraero e da representante da Petrobras, depois de excluída a opção de concessão de parte do governo de qualquer ajuda à empresa aérea de bandeira, e diante do desinteresse coletivo do capital nacional em investir numa companhia que num passado recente havia sido sua predileta, não surpreendem as boas vindas ao capital estrangeiro, que não foi rejeitado, como mandava a lei, mas absorvido e tolerado pois representava o meio único disponível para evitar o naufrágio final da Varig.

 

Se é verdade que quem aceitou participar da trama agiu assim somente visando vantagens e lucros, é também um fato que, antes do aparecimento da VarigLog, cuja compra foi financiada teoricamente pela Volo do Brasil, mas na realidade pelos dólares que chegavam da Matlin Patterson, não houve uma só proposta alternativa aceitável, enquanto a contagem regressiva marcava os dias finais da Varig S.A.

 

Na época, como hoje, houve quem enfatizou que a VarigLog era fruto de uma manobra ilegal que não devia ser permitida. Mas ninguém, nas altas esferas , que podia ou devia impedir a iniciativa a condenou, deixando que a Anac, a Agência Nacional de Aviação Civil, homologasse o acontecido. Demorou, mas afinal veio a autorização para a VarigLog existir legalmente e voar  como aérea brasileira. Nunca foi dito, mas quase certamente o então presidente Zuanazzi, convencido ou não, reconheceu a validade da documentação apresentada obedecendo a uma ordem que lhe chegou de Brasília, onde vários ministros estavam cansados de ser envolvidos em disputas verbais a favor ou contra a venda da Varig, que por sua inconsistência sempre acabavam em nada. Talvez já estava se delineando nas alturas do Planalto a maquiavélica manobra que, meses depois, repassaria a velha Varig à Gol, uma empresa cem por cento nacional. Em todo caso, houve interferências preciosas a favor da VarigLog, à custa de milhões de reais que segundo entrevista concedida há dias por um dos três sócios brasileiros da Volo do Brasil, Marco Antonio Audi, teriam sido pagos ao advogado Roberto Teixeira. Com a força que lhe é dada pelo parentesco e pela amizade com o presidente Lula, o advogado conseguiu até uma audiência no Palácio do Planalto da qual, além de outro sócio brasileiro teriam participado Lap Chan e Santiago Born, representantes da Matlin Patterson. Teria sido um jogo de cartas marcadas, no qual o jolly governamental serviu para encerrar o assunto, cujo lucro ficou com os intermediários.

 

A história restante viu a VarigLog adquirir em leilão e repassar com grande lucro à Gol a velha Varig, também com audiência final no Palácio do Planalto, onde Constantino Jr. recebeu efusivos comprimentos. Fechava-se assim, a trama que transformou em empresa nacional a VarigLog, para que atuasse como deus ex machina na passagem para a Gol da antiga Varig, supostamente salva e destinada a grandes vôos internacionais para frear a expansão da Tam.

 

Pena que ganância e lutas internas entre sócios brasileiros e americanos acabaram afetando a VarigLog, que atuando como empresa cargueira chegou a produzir milhões de receita e pena, também, para a Gol, que operando a VRG sofreu seus primeiros abalos financeiros e operacionais, por ter entrado num segmento aéreo desconhecido, sem um estudo prévio de mercado e uma avaliação dos resultados esperados no curto e no médio prazo.

Mas essa é outra história, pois os destinos da VRG adquirida pela Gol e da VarigLog arrematada pela Volo do Brasil & Cia são interligados e, se prevalecer a sentença judicial que aponta ilegalidades na concessão obtida pela Volo Brasil, até o revenda da Varig poderá ser judicialmente questionada. (Leia no blog Aero News novos episódios do duelo Audi versus Lap Chan )