HISTÓRIAS MEMORÁVEIS DE PESSOAS QUE VIVIAM NOS AEROPORTOS

Com estas três breves histórias de personagens que conviveram nos aeroportos com os tripulantes, encerramos a publicação de trechos do livro de memórias do engenheiro de vôo Adilar André Cossa. Essas lembranças, devido ás  características humana das pessoas, nesta época do ano assumem as aparências de contos natalinos.Mas elas evidenciam também que em seu dia-dia os tripulantes não lidavam somente com motores, turboélices,reatores,treinamentos e vôos.O lembrete é mais um motivo para agradecer ao eng. Cossa por ter cedido á Aeroconsult os direitos de publicação de alguns capítulos de suas memórias . E para convidar outros “ex”, que militaram na Varig ou em outra empresa nacional, para que nós encaminhem textos com lembranças suas que, de uma ou outra maneira, fazem parte da história da aviação do país.

Galo, Quebec e Tche Fagundes foram pessoas que praticamente viviam nos aeroportos de Congonhas Guarulhos e Santos Dumont, quase sempre nos locais freqüentados pelos tripulantes. Com o tempo foram angariando simpatia destes por serem inofensivos e prestativos. Eram conhecidos e aceitos por quase todos.

           O Galo era de cor escura e tinha má formação congênita, falava com voz anasalada e por isto era difícil entende-lo. Também tinha pouca mobilidade nos braços, a sua postura tenha alguma semelhança com o corcunda de Notre Dame. Vivia se infiltrando na condução dos tripulantes para se locomover entre os aeroportos de Congonhas e Guarulhos, sentava nas primeiras poltronas com um quepe surrado que lhe foi dado por algum tripulante e ao chegar costumava pegar uma mala que carregava até o D.O. Este fato se tornava hilário, quando o tripulante não conhecia a figura e entrava em desespero pelo sumiço da mala.

Costumava se aproximar nos grupos de tripulantes para dar palpites nas conversas e tentar vender rifas, passar listas de Natal e até de Carnaval. Para se fazer notar dava um cutucão no tripulante escolhido como vitima, que geralmente colaborava com o intuito de ajudá-lo.

           Graças á sua simpatia ganhava coisas dos tripulantes. Mas o que ele mais gostava, era vestir um uniforme de tripulante usado, que lhe foi doado por um comandante. Isto durou até que um diretor da empresa ficou indignado e lhe proibiu o seu uso. Porém de vez em quando ele tinha uma recaída: numa destas, uma senhora ao encontrar dificuldade para estacionar, entregou a chave do carro para o Galo procurar uma vaga. O resultado foi catastrófico, com vários carros abalroados.

Segundo contam, morreu de forma muito triste, com um osso de galinha entalado na garganta, que devido às limitações físicas não conseguiu remover.

           O Quebec vivia no aeroporto Santos Dumont e tinha sido F/E da FAB. Após um acidente foi aposentado por problemas psicológicos. Eu foi o único que tive algum contato com ele. Vivia com um jornal, catado de algum avião, debaixo do braço, tinha acesso a quase todas as dependências do aeroporto e costumava procurar tripulantes para discutir atualidades. Mas quando emitia alguma opinião, se alguém discordasse, dava uma engasgada e no mesmo instante passava a concordar com o   interlocutor. 

Costumava fazer pequenos favores, como pagar contas dos tripulantes, pelos quais recebia gorjetas que eram gastas com aperitivos, Apesar disto sempre dava conta das tarefas, demonstrando muita honestidade. Contava casos seus e de sua mulher, que na verdade ninguém sabia se eram verdadeiros ou obra de ficção. E quando estava alto ficava um pouco chato.

           O Tche Fagundes é dos anos setenta, quando o D.O. da Varig era localizado no subsolo do aeroporto de Congonhas. Ele tinha sido comandante de Electra, no qual se aposentou. Contavam que no seu ultimo vôo fez um pouso manteiga e que estava na pista quando se virou para traz para dizer: “e ainda querem aposentar o velhinho”. Nisto o flight e co-piloto gritaram “freia Tchê, senão vamos para o buraco”. E faltou pouco. Oriundo de Santana do Livramento o seu vocabulário era pródigo em termos gauchescos. Vivia sozinho e, mesmo depois de aposentado, passava os dias no D.O. e gostava de jogar xadrez.Quase sempre perdia e ficava muito brabo se um dos companheiros de jogo imitava tudo que ele falava em voz baixa. Nas poucas vezes que ganhava o seu semblante irradiava felicidade e saia falando e contando lances do jogo até para desconhecidos.

           Foram estas pessoas, com as suas loucuras, devaneios e suas frustrações que preencheram as vidas de muitos tripulantes com um colorido especial, que talvez refletia sentimentos entre os mais socialmente corretos.