ERROS SE PAGAM : A GOL RECITA SEU MEA-CULPA
Na
quarta-feira passada, em palestra realizada na sede da Confederação Nacional do
Comércio, no Rio, o vice-presidente de marketing da Gol, Tarcisio Gargioni
disse, ao focar os problemas que a empresa teve na rotas internacionais
operadas pela VRG: ”Não tínhamos aviões
adequados e o 767 estava ultrapassado. Agora nossa meta e trabalhar apenas com
aviões da nova geração” e depois acrescentou “E daqui a cinco ou seis anos, quando a frota do grupo estiver unificada
e reestruturada com aviões eficientes e modernos, poderemos voltar a pensar em
operar no mercado internacional”.
Isto é: em
E seu
vice-presidente de Marketing demorou quase seis meses para reconhecer erros que
custaram centenas de milhões de reais à aérea. Antes, o “erro dos erros” foi
adquirir por mais de US$ 300 milhões uma Varig S.A. cheia de problemas,
praticamente acéfala, para entregá-la a voluntariosos executivos que nunca
haviam enfrentado diretamente um desafio como o relançamento nos mercados
mundiais de uma aérea de imagem apagada pelos ônus financeiros. E ainda mais, sem
dispor de uma infra-estrutura internacional articulada, de gerentes conhecedores
da empresa e dos mercados, sem ter edificado em volta do nome VRG uma imagem
nova, sugestiva, atraente, dedicada ás centenas de milhares de ex-usuários,
saudosos de voltar a ocupar um assento numa aeronave cuja logomarca haviam
amado por décadas. Pois com uma empresa recauchutada, com aviões inferiores em
espaço, autonomia e comodidade de assentos, a Gol não poderia pensar em
conquistar novos passageiros, tira-los das congêneres. Somente agora o
representante da Gol admite que a marca Varig está bastante desgastada, mas não
diz se já se encontrava nessa condição quando foi adquirida pelo presidente
Constantino Jr. ou se ficou tão mal depois da nova, frustrante experiência internacional.
Nem explicou porque, depois de ter justificado a compra como um meio para
contestar o avanço da Tam nos mercados internacionais, agora a Gol não parece
se preocupar mais com o avanço sem barreiras da congênere e, ainda, alimenta a
esperança de voltar a competir dentro alguns anos, não se sabe voando para
onde, se até lá as rotas mais rentáveis já estarão sob o domínio de outras
aéreas, Tam inclusive.
Gargioni,
com certeza, não tem tempo para ler os textos semanais que este escriba publica
no site Aeroconsult. Se o fizesse, ou se ainda agora quisesse ler os artigos “O
rumo incerto da Gol” e “O tropeção da Gol nas rotas internacionais”, publicados
em fevereiro e abril deste ano e disponíveis no arquivo do site, encontraria
neles as mesmas considerações, e algo mais, que apresentou aos ouvintes na sua
conferência na CNC, semana passada. O “meã-culpa” da empresa, divulgado agora
pelo vice-presidente, veio tarde sob a forma de duvidosa franqueza em
reconhecer erros, pois na realidade é apenas um pretexto para garantir que o
amanhã será bem melhor. Pois, se a imagem da Varig está bastante desgastada,
também aquela da Gol está atravessando no mercado doméstico um período de
decadência. Se assim não fosse, seria inexplicável o fato que enquanto a Tam
aumentou em agosto sua participação de mercado de 48,82% em 2007 para 54,18% no
mesmo mês deste ano, a Gol desceu de 37,16% para 34,13% e operou com um
aproveitamento crítico de 55%, enquanto a outra passou de 61% no ano passado
para 68% neste ano. O problema está no excesso de oferta, que acompanha a média
da indústria (12,8%), quando deveria haver um stop and go,para encher um pouco mais seus aviões, que quase estão
batendo latas, nalgumas rotas. Mas Gargioni se orgulha em afirmar que a sua
aérea possui 161 aviões e está com mais 127 encomendas a receber até 2014, das
quais 15, em 2009, irão substituir com 737-800 os atuais modelos mais antigos.
Com tudo isso, com a participação da VRG, o prejuízo do último trimestre foi para
R$ 216 milhões e foi suspenso o pagamento de dividendos aos acionistas.
Mas há
projetos. Deles, o mais oportuno consiste na unificação comercial da VRG e da
Gol, com uma equipe concentrada na sede da Varig do aeroporto de Congonhas. O
plano, que aguarda a aprovação da Anac, sem dúvida contribuirá para uma
sensível redução de gastos (algo estimado em volta de R$ 180 milhões), mas
quanto aos resultados práticos, tudo depende da eficiência dos vendedores e da
redistribuição otimizada dos 798 vôos operados pelas duas aéreas em horários
“mais adequados” . Há décadas,
experiência parecida, unindo as forças de venda da Varig e da Cruzeiro do Sul,
não deu os resultados esperados. Outro projeto, de aparência algo primária,
consiste em realizar no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília a venda a domicilio do cartão Voe Fácil , já
em fase experimental