AÉREAS ENFRENTAM EMERGÊNCIA REDUZINDO O NÚMERO DE VÕOS

 

Nesta conjuntura não se justificam as fantasias de expansão das empresas nacionais – O exemplo da portuguesa Tap

 

A atual crise das companhias aéreas mundiais não tem comparações. O fato que elas tenham perdido mais de US$ 40 bilhões entre 2002 e 2006 expressa apenas a soma de problemas particulares, excluindo numerosas empresas que continuaram operando com boa rentabilidade. Atualmente é a inteira indústria que está em crise, não por falta de passageiros, na maioria dos casos, mas devido ao enorme peso do preço do combustível, que altera o equilíbrio ideal custos/receitas possibilitado pelas tarifas vigentes, a níveis de aproveitamento acima de 70% da oferta. Tarifas já oneradas por sobretaxas que cobrem em parte a elevação do querosene de aviação, sem minimizar as perdas que a incidência do preço do combustível provoca para as empresas de aviação.

 

As aéreas, também as mais conservadoras, estão reagindo na única maneira que as leis de mercado recomendam: cortam despesas e reduzem a oferta, para elevar o aproveitamento das aeronaves, nas rotas de bom potencial. Nas outra, se o load factor está abaixo de 60%, diminuem o número de freqüências, para condensar os embarquem em menor número de vôos. Quando isso é permitido pelos respectivos mercados, ou seja quando a concorrência não ameaça absorver o tráfego perdido por uma freqüência cancelada. Mas em certos casos, até quando a suspensão de vôos poderia beneficiar as congêneres, pois há momentos, na vida das aéreas, em que a falta de rentabilidade é um problema que acaba com a falência.

 

Nos Estados Unidos, onde o grande número de companhias aéreas e a extensão territorial complicam a luta para a rentabilidade, uma dezena de operadoras já saiu do mercado e muitas outras estão adotando medidas para reduzir o número de vôos. As conseqüências, em muitos casos, recaem sobre as forças de trabalho, causando demissões de técnicos e de funcionários. Outra opção seria aumentar as tarifas, mas os níveis necessários para compensar os custos crescentes são bastante elevados e acabariam afastando os passageiros. E o efeito negativo permaneceria, pois o número de assentos vazios cresceria em percentuais estimadas em 10% e 12%, em grande número de países e de rotas. 

 

Esta preocupação não parece ter sido ainda percebida pelas aéreas brasileiras, em lutas por novos slots para aterrissagem e recebendo entregas mensais de novos Airbus e de Boeing (virtualmente suspensas por empresas de outros países), enquanto procuram novos pontos para operarem. Ainda não detectaram que, se não forem autorizados aumentos tarifários, em breve deverão suspender freqüências, deixar aeronaves paradas nos hangares, demitir o pessoal ocioso que foram contratando. E o preço diário dos leasings aumentará o prejuízo, se é verdade, como se afirmava há décadas, que um avião custa praticamente mais se ficar parado, que se estiver operando.

 

Aliás, os impulsos de crescimento operacional para ser um denominador comum em toda a América Latina. Ao mesmo tempo, as empresas norte-americanas e européias lamentam que a liberdade oferecida no ano passado com a adoção do regime de céus abertos no Atlântico Norte tenha chegado numa hora tão imprópria, oferecendo possibilidades de sucesso financeiro apenas a uma minoria.

 

Assim mesmo todas elas, da American Airlines à Delta e à Northwest, oneradas mais de outras congêneres pelo elevado consumo de combustível (pois suas frotas incluem aeronaves sem os recursos atuais, como os Boeing das primeiras séries 737 e aviões semi-obsoletos quais os DC-9 e os MD-80) já fizeram cortes significativos no número de vôos não rentáveis e entre seus funcionários. E´ de ontem a notícia que a Northwest decidiu demitir 2.500 funcionários, para acompanhar a redução de suas freqüências. Iniciativas desse tamanho ampliam o impacto social da crise setorial da economia americana, por causa da qual milhares de usuários já desistiram de suas costumeiras vacations de verão.

 

Na Europa poucas foram, ate agora, as aéreas que apresentaram com franqueza, ao governo e à opinião pública, a gravidade dos desafios que estão enfrentando. Não existem opções a não ser resistir aos déficits de milhões, rever os projetos de crescimento, cortar linhas ou freqüências em fase de desenvolvimento, demitir funcionários. Sem que os governos, pelo menos aqueles cujos países pertencem à União Européia, possam dedicar ajudas financeiras para aliviar as dificuldades das empresas aéreas, inclusive as chamadas “de bandeira”. 

 

Um bom exemplo de correto relacionamento com os usuários veio da Tap. Seu presidente, o brasileiro Fernando Pinto, esclareceu sem receios os problemas que a sua empresa está enfrentando. Numa entrevista coletiva, realizada em fim de junho informou que a Tap, nos primeiros cinco meses do ano, havia registrado prejuízos por 102 milhões de euro, causados pelo grande aumento do preço do combustível. Ele previu que se não fossem tomadas medidas, esse prejuízo poderia chegar a 150 milhões. Em vista dessa evidência, enquanto a escalation do preço do barril de petróleo continuava, decidiu intervir oficializando o plano de redução do número de vôos da Tap, cuja possibilidade havia sido ventilada em declarações do vice-presidente executivo da aérea, Luiz da Gama Mór. O plano prevê a suspensão de freqüências em dias de notório menor aproveitamento, totalizando 60 vôos semanais, dos quais 51 em rotas de distância média para 18 cidades da Europa e 9 intercontinentais. Para a Europa foram anunciados períodos de suspensão: entre 3 e 30 de novembro; de 12 de janeiro a 15 de fevereiro de 2009 e, em seguida, de 2 a 28 de março. Em relação ao Brasil, os vôos das linhas entre o Porto,  São Paulo e Rio de Janeiro são as que terão maior redução proporcional de oferta ,juntamente com aqueles para Nova York, dos quais dois serão suspensos e para Caracas ,com menos um vôo. Resumindo, no Brasil haverá a suspensão de três vôos por semana para o Rio de Janeiro, dos quais dois saindo de Lisboa, e de um vôo nas rotas para São Paulo, Recife e Natal.

 

Voltando às empresas brasileiras, deve ser assinalado que, sem querer, a decisão da Gol de suspender por tempo indeterminado os vôos da Varig para o exterior (o ultimo será aquele para Paris) evitou para a nova VRG um desgaste maior. Não há duvida de que operando seus velhos Boeing 767-200, inferiorizada na competição com as modernas aeronaves das concorrentes, em conseqüência do maior consumo de combustível dessas aeronaves, a empresa estaria subindo perdas ainda maiores. Todavia, quando foi decidida a suspensão, não havia ainda à previsão de uma alta continua do preço do petróleo. De outro lado, a conjuntura deveria influenciar o projeto da Tam referente ao próximo início de 12 vôos para os Estados Unidos, assim como deveria ter sugerido menos pressa na divulgação da decisão bilateral que eleva o número de freqüências entre Brasil e EUA. Não seria uma surpresa a transferência para 2009 das novas operações da Tam e até uma redução das 105 operações semanais para o Brasil atualmente realizadas pelas aéreas americanas.

 

Numa conjuntura econômica tão difícil, com os graves reflexos da crise dos EUA no tráfego internacional e do preço do petróleo sobre a indústria de transportes aéreos, somente a prudência poderá evitar às empresas prejuízos insustentáveis.