OS RISCOS DA APOSTA BRASILEIRA NAS OLIMPÍADAS DE 2016

 

Analistas de mercado competentes, livres de entusiasmos patrióticos e de sonhos de prestígio internacional, estão convencidos de que o Brasil não deveria sonhar de ser indicado como país-sede das Olimpíadas de 2016.

Há obstáculos estruturais e considerações de natureza social que não deveriam ser ignorados, antes de expor o país a um desafio enorme, se por acaso o Rio de Janeiro ganhasse a competição com Madrid, Chicago e Tokyo.

 

 

O governo, o Comitê Olímpico e grande número de entidades lutam para o Rio ser designado, na reunião do Comitê Internacional prevista para a segundo semestre deste ano. Motivos diferentes estão reunidos sob a mesma bandeira olímpica. Para o governo seria mais uma conquista da atual administração, que confirmaria o prestígio alcançado e, sem dúvida, incentivaria iniciativas setoriais de grande potencial para o desenvolvimento esportivo e social do país. Para o Comitê Olímpico Brasileiro a realização das Olimpíadas de 2016 terá efeitos positivos e multiplicadores para a formação de atletas nacionais, além de projetar a entidade organizadora entre as grandes do mundo. E há, ainda, um enorme número de instituições e de particulares que identificam nas oportunidades oferecidas por uma manifestação internacional como os Jogos Olímpicos, um precioso veículo para a valorização de seus produtos e serviços.

 

Ninguém parece duvidar do sucesso, apesar da magnitude dos problemas que deverão antes ser resolvidos. Entre eles os de natureza estrutural, que para serem superados de maneira adequada estarão exigindo um esforço financeiro e organizativo talvez desproporcional aos resultados práticos esperados do evento. Haveria outras prioridades no país. Situações sociais de pobreza existentes em Estados poderiam ser aliviadas pelos bilhões a ser investidos em instalações desportivas, sem contar seus efeitos nas infra-estruturas carentes, das quais depende o bem estar de milhões de pessoas.

 

Assumir o compromisso de organizar os Jogos inclui, entre os riscos, o cumprimento do calendário das competições nas 12 cidades que deveriam hospedar os jogos, separadas por grandes distancias. Como mínimo deveriam ser centralizados não somente a disponibilidade de horários e de assentos nos transportes aéreos e terrestres essenciais para as movimentações paralelas das equipes e de centenas de atletas, como também a rotatividade na ocupação de quartos, bloqueados em hotéis previamente selecionados.

 

Num lúcido artigo publicado no JB, o presidente da Associação Brasileira da Indústria Hoteleira do Rio de Janeiro, Alfredo Lopes, se referindo á possibilidade de indicação do Rio pelo Comitê Olímpico Internacional, se disse confiante de que a cidade “sairá dessa disputa vitoriosa”. Mas a sua apresentação dos problemas que a indústria hoteleira da Cidade Maravilhosa (que totaliza 28 mil quartos) deverá enfrentar para poder acrescentar aos 10 mil já dedicados ao evento as mais de 8 a 10 mil unidades, que estão faltando para hospedar os atletas, foi ao mesmo tempo realista e desanimadora. Ele informou que, considerando que no passado cerca de mil quartos, em média, foram acrescentados anualmente aos existentes, nos próximos 7 anos o total disponível (com os 10 mil já reservados) poderia chegar a 17 mil. Mas não há indícios de que em 2009 e 2010, devido á crise mundial, as novas iniciativas hoteleiras chegarão a essa média. Por isso, seria necessário que entre 2011 e 2016 a média de novas construções fosse de cerca de 1.500 unidades a cada ano. Se trata,evidentemente, de um calculo objetivo para demonstrar que a meta de 18 a 20 mil quartos de hotéis disponíveis no Rio para as Olimpíadas, está muito longe da possibilidade de ser realizada. E falta maior consistência prática ás soluções alternativas aventadas no texto para cobrir o déficit, que seriam a “revitalização” de hotéis parados há anos e a convocação, nas águas do Porto do Rio de Janeiro, de navios transatlânticos vazios alugados, cujas cabines serviriam para a hospedagem de atletas.

 

O artigo de Lopes deveria soar como um sinal de alarme, talvez assumindo as funções de uma ducha fria sobre os entusiasmos excessivos.  Nas circunstâncias descritas pelo autor, somente uma intervenção governamental para bloquear os quartos necessários nos hotéis que não assumiram compromissos de reserva para os atletas, poderia alterar as alarmantes previsões de falta de milhares de alojamentos, se o Rio de Janeiro fosse escolhido para a Olimpíada de 2016.

 

Deve ficar claro que não se criam novos hotéis sem projetos e investimentos, e sem a perspectiva de utilização adequada também antes e depois dos Jogos. E que o desafio das Olimpíadas nada tem a ver com a construção de Brasília em tempo recorde, um exemplo que com freqüência é citado diante das dificuldades para realizar obras aparentemente impossíveis. Ou citar o relativo sucesso obtido na organização dos Jogos Pan-Americanos, comparativamente bem menores, inclusive pelo número de participantes, concentrados em maioria na modesta Vila Olímpica do Rio. A dimensão e a grandiosidade do show olímpico são outros, ainda mais depois que o mundo assistiu aquele realizado em Pequim.