AEREAS NACIONAIS LUTAM CONTRA A CRISE
É difícil entender por que,
com o preço do petróleo caindo vertiginosamente e as tarifas aéreas domésticas
subindo para níveis nunca antes alcançados, as maiores empresas nacionais
continuam perdendo dinheiro, de acordo com os balancetes do terceiro trimestre
divulgados nestes dias pela Tam e pela Gol.
E, ainda, se na metade do
ano o custo do querosene de aviação havia sido identificado como o responsável
pelas perdas, atualmente, depois que o petróleo viu seu preço diminuir de quase
50%, em comparação com o mês de julho, por qual motivo as aéreas – e não
somente as que operam no Brasil – estão tão preocupadas com as incógnitas que
os mercados lhes reservam para 2009 ?
A indústria de transportes
aéreos descobriu nestes últimos meses que, dos males que a ameaçam, o preço dos
fuel é o mais evidente, mas não é o
único. Devido á sua dependência do combustível,
se devem paga-lo mais caro vão por água abaixo todos os cálculos sobre custos
operacionais e yields que garantem a
sua rentabilidade. E para enfrentar esse problema, além de procurar como e
quais custos ainda podem ser cortados, a sua única válvula de escape seria o
aumento das tarifas, que todavia tem seus limites econômicos, para evitar de
perder tráfego. Mas pode acontecer, como se verifica atualmente, que ao impacto
negativo causado sobre o usuário pelas tarifas mais caras se acrescenta a retração
da demanda, provocada pela crise que aflige os mercados. Dois fatores adversos cujos
efeitos, somados, fogem ao controle das companhias aéreas. A não ser que
possuam reservas em caixa que lhes permitem enfrentar as perdas, ou fontes de créditos
ás quais podem recorrer por determinado período, para cumprir seus compromissos
diários com fornecedores, pessoal e gastos operacionais..
Atualmente o petróleo, que
foi a causa inicial das preocupações da indústria, pesa menos sobre o custo
operacional, mas na realidade a redução de seu preço é apenas o indicador de
outros problemas, de natureza econômica e financeira, que afetam todos os setores
e as relações internacionais. De fato, foram a contração do export-import e da produção industrial,
a crise bancária e as demissões em massa que reduziram o consumo do petróleo e
de seus derivados, ao ponto que os produtores tiveram que baixar os preços,
para poder manter o fluxo de suas atividades extrativas e aliviar o ônus de estoques
que alcançariam milhões de barris.
Contra as previsões do
primeiro semestre do ano, em poucos meses saiu do cenário a temida escalation do preço do petróleo, com
seus reflexos imediatos nos custos dos transportes e de outras inúmeras
atividades dependentes do ouro negro, mas sem vantagens imediatas para ninguém.
Pois as economias dos maiores países do mundo estão tão interligadas depois da
globalização, que as falcatruas financeiras de bancos e similares, nos Estados
Unidos e no mundo, alem de atingir como bumerangues quem as cometeu envolveram
também, e com maior crueldade, outros setores econômicos e quem ainda
acreditava nessas instituições, supostamente vigiadas pelos governos.
Em breves semanas, as
empresas aéreas descobriram que a vantagem de pagar menos para o combustível
estava sendo anulada pela redução de suas receitas. Até a previsão da IATA de
que com o preço do petróleo acima de US$ 113 o barril a indústria mundial de
transportes aéreos perderia em 2008 cerca de US$ 5 bilhões, está se revelando
sem fundamento. De fato, quando foi dito em Genebra que para alcançar seu
break-even a aviação mundial deveria pagar
Foram os aumentos tarifários
que causaram a debandada de passageiros ? Ou foi a crise, apesar do otimismo oficial,
que já se instalou no país, afeta ás exportações e a produção industrial,
provoca a escassez de créditos e inviabiliza inúmeras atividades econômicas,
com a cumplicidade da extorsão autorizada representada pelas taxas de juros ? E
as empresas aéreas, que acreditaram no dólar barato, hoje o culpam por imprevistos
aumentos de custos ligados às operações de câmbio. Apostaram, como a maioria,
nas dádivas de uma época em que o futuro parecia róseo, garantido pelo fato que
o Banco Central havia acumulado mais de 200 bilhões de dólares, que captava no
mercado para evitar que o valor do real aumentasse ainda mais por causa de
investimentos estrangeiros improdutivos, pura especulação legalizada. Enquanto
isso, na ilusão de enriquecimentos sem risco, centenas de milhares de ingênuos
nativos, orientados por consultores interesseiros foram levados a apostarem
suas economias numa Bolsa inflada. E hoje devem cancelar viagens aéreas, corporativas
ou familiares.
Entre eles estão os que
investiram nas ações da Gol e da Tam, acreditando com razão em sua eficiência,
nos balancetes trimestrais dos anos dourados, com lucros de milhões. Eles não imaginaram
uma reviravolta, nem deram peso a erros como aquele que queria transformar uma
aérea cabocla numa empresa internacional, nem contaram com o apoio parlamentar
que deveria obrigar o governo a apóia-las. Fieis ás leis de mercado, os
ministros deixaram a Varig perecer e permitiram o domínio das congêneres americanas,
que com a força do dólar subsidiado pela Casa Branca, acabaram ficando com o
prestígio e com as receitas que, em outras épocas, haviam pertencido á aviação
nacional.
Seria injusto, até contrário
aos interesses do país, se a maioria das aéreas menores fosse obrigada a deixar
as rotas do país. Se, enquanto no exterior é competindo que é ganho espaço nos
mercados, aqui é um bom relacionamento com quem manda que facilita tudo. Se as
rígidas regras do BNDES abrem financiamentos para quem possui referencias
externas e ignoram quem para crescer precisaria renovar sua frota, tendo acesso
á produção da única fábrica nacional de aeronaves. Se as facilidades concedidas
pela Anac a uma empresa novata no mercado, não são as mesmas reservadas ás indígenas,
enquanto bilhões de reais são despejados pelo governo nas vorazes gulas de
bancos e financeiras, para se livrarem de papeis sem fundo que fizeram circular
pelo mercado.
Supostamente representando
serviços de utilidade pública e julgadas por alguns como estratégicas, as
empresas aéreas do país lutam num mundo financeiro injusto, que bloqueia seu acesso
a um futuro melhor, e não podem contar com o amparo do governo, como acontece
lá fora. Por isso, há o receio permanente de que no médio prazo qualquer uma
delas poderá vir a conhecer, junto com seus funcionários, a
mesma amargura que já levou para o esquecimento nomes ilustres, outrora símbolos
de um país em evolução.