APÓS A
TEMPESTADE, A AVIAÇÃO BRASILEIRA PROCURA O CAMINHO DA CONSOLIDAÇÃO
Se 2007 foi para os
transportes aéreos nacionais um ano para esquecer, 2008 poderá ser o ano das
mudanças e da consolidação. Dificilmente haverá na história da aviação
brasileira outro ano comparável com aquele que se encerrou. Não foi somente o
desastre com o Airbus da Tam, que enlutou a indústria, mas houve também
acontecimentos que revelaram uma estrutura fraca, através das inúmeras falhas
registradas nos aeroportos e no monitoramento do tráfego, assim como nas
evidências de desperdícios financeiros e de carências técnicas.
Houve por alguns meses, após
o desabamento da Varig e frente às deficiências de uma Anac incapaz de
controlar as aéreas, a suspeita de que Gol e Tam seriam, num curto prazo, as
donas dos céus nacionais, num duopólio que amedrontava até o autoritário
ministro da Defesa. As duas mandariam no mercado, à custa dos inermes usuários,
recorrendo se necessário a escusos entendimentos, para que a dança das tarifas
fosse sempre a preferida, delas.
O que se viu, no primeiro
bimestre, foi apenas uma grande confusão. De um lado a Tam trocando executivos,
tomando a sério o treinamento de seus 22 mil funcionários, se preocupando com a
imagem em decadência perpendicular, com seus desbotados tapetes vermelhos, com
sua frota exuberante e com a falta de técnicos. E em março veio a reação
visual, sob a forma de anúncios bonitos, de multidões sob as asas amigas de
aviões com as letras re-maquiladas, que mereciam este carinho depois do
esquecimento do último biênio, todo dedicado aos balanços e ao aumento da frota
e das receitas. Com as novas rotas se abrirá a temporada do renascimento, sob
parâmetros atualizados, pois na saudosa época do comandante a Tam era outra,
por dimensões, compromissos e rede de rotas. Nesta nova fase não será bastante
o empuxo do antigo motor monofásico para alcançar as alturas adequadas aos
investimentos feitos em máquinas e
Do outro lado, 2007
evidenciou as fraquezas estruturais da Gol. Uma empresa montada sobre um
capital de milhões, oriundos de seus donos e dos acionistas, mas carente de
tradição, imatura para os desafios da indústria de transportes aéreos, ainda
sem flexibilidade para aceitar os prejuízos como “part of the game”, uma empresa modelo em lucros propiciados pelo
controle de custos, quase viciada por lucros relativamente fáceis obtidos se apresentando
como uma “low fares”, quando na
realidade foi quase sempre somente uma “low
cost”. Ainda com bons lucros, mas preocupada por perdas que deviam ter sido
previstas em rotas internacionais ocupadas por congêneres experientes e por
aeronaves bem superiores aos 767-
Em volta de Tam e Gol há,
praticamente, o vazio, em termos industriais. Mais de uma dezena de donos de
aviões se dedicam às atividades de transporte eventual, semi-regular e até
regular de usuários, que não tem outras opções ou apenas preocupados em pagar
tarifas baixas. Empresas sem capitais bastantes, ou vontade de arriscar num
investimento que exige muito mais que apenas aviões e rotas para ser rentável;
que se alimentam com a consultoria ou com a orientação de ex-executivos da Varig,
Vasp, Transbrasil, empolgados pelo desafio e atraídos por salários que os
ajudam a esquecer as amarguras duma velhice sem a aposentadoria do Aerus.
Periodicamente fala-se da volta da Vasp, ou da Transbrasil, mas os entendidos
sabem como são raros esses retornos, inclusive quando as falecidas contam com a
firme saudade de fans-clubs, como no caso da Panair do Brasil. Nesse contexto,
fazem sentido a preocupação do ministro Jobim pela existência de um duopólio e seu
apoio incondicionado à possibilidade que o ex-presidente da JetBlue, David
Neeleman organize no Brasil uma competitiva aérea low fare.
Até o Airline Business já deu a notícia em sua edição deste mês. Escreveu o prestigioso periódico: que Neeleman “aims to set up a new carrier following the low-cost low-fare JetBlue
formula. It will likely operate 100-seat Embraer 190s and compete directly with
Gol and Tam”. A informação (publicada
ao lado de outra que relata a possível cooperação comercial entre Lufthansa e
JetBlue, depois que a aérea alemã adquirir 19% das ações da low cost) acrescenta que Neeleman está
analisando o mercado brasileiro desde setembro e que teve contatos iniciais com
BRA e Vasp que poderia estender à Total e a Trip. De fato, a possibilidade do
executivo, brasileiro de nascimento, formar uma nova aérea está sendo apoiada
pelo governo e considerada como bastante provável. Mas surgem algumas dúvidas
sobre a conveniência de Neelemann investir somente numa frota de Emb. 190 da
Embraer, sendo notório que também a JetBlue utiliza esse modelo brasileiro, mas
conseguiu o sucesso com uma frota de 104 Airbus A320 e de 30 Emb 190.
Segundo os analistas, a
idéia de operar esse avião de
Por tudo isso e, ainda,
pelas novas diretrizes de tráfego, pelos investimentos na estrutura
aeroportuária e de controle aéreo, (apesar das incertezas da política comercial
da Gol, em contraste com o compromisso de crescimento da Tam), 2008 poderá ser
um ano sem precedentes para o desenvolvimento dos transportes aéreos do país. A
estabilidade econômica, o aumento de 12% no tráfego de passageiros, o crescimento
compulsório da oferta, o possível debute de uma nova empresa - se os efeitos da
crise financeira dos EUA não atingirem o país - deverão consolidar o atual
impulso da renovação da indústria e estabelecer uma base firme para novos recordes
na história da aviação brasileira.