A VARIG E OS ALGOZES DE SEU PRESTÍGIO

 

Na quinta-feira passada, a imprensa publicou que a Justiça estava procurando o chinês Lap Wai Chan, a quem um juiz havia confiado a VarigLog, excluindo da administração o trio de brasileiros que haviam possibilitado a “operação” de compra e venda da Varig. Na sexta, podia ser lido nos jornais que o executivo da Matlin Patterson não havia obedecido à convocação judicial para se apresentar no Fórum de São Paulo, e havia viajado para o exterior, provavelmente para a Suíça, o país-banco do dinheiro lícito e ilícito que circula pelo mundo. E que a partir de junho a Gol vai suspender também as rotas da Varig  para Paris, Madri e Cidade do México.

 

Assim, mais capítulos estavam enriquecendo o longo drama que teve na Varig sua grande vitima, sob a direção de muitos seus executivos e intermediários, interpretes sazonais não desinteressados, de uma história que começou impulsionada pela paixão e virtualmente se está concluindo na mediocridade imposta pelos comerciantes da Gol.

 

Poucos se salvam entre os que entraram em cena, depois do afastamento de Rubel Thomas . Mas muitos foram os que tiraram vantagens da ausência de uma auditoria competente. Foram anos de leilão corrido não oficial, que proporcionou vantagens, lucros e até riqueza a quem melhor soube aproveitar da conjuntura. Oficialmente não há registro de vendas de aeronaves e repartição de receitas, talvez porque as empresa de leasing não o permitiram, mas as negociatas foram numerosas. Individualmente, só como exemplo mais recente, podem ser citados os executivos que se afastaram antes da posse da Gol, garantindo com antecedência ilegal seus supostos direitos trabalhistas, que outros milhares de funcionários da aérea ainda estão aguardando. Corporativamente, vale por todos o grande golpe que a fictícia VarigLog, com a incompetente cumplicidade da turma de debutantes que dirigia a Agência Nacional de Aviação Civil, deu no leilão no qual adquiriu indevidamente, para depois repassar legalmente à Gol , o prestígio da Varig e seu corpo agonizante.

 

Um breve resumo desse vergonhoso capítulo ajuda a melhor entender a que ponto a fase semifinal do drama chegou. Em 2005, havia foco cruzado em volta da Varig. Rejeitada pelo governo, a aérea estava se entregando a quem lhe prometia a salvação, que exigia fundos bastantes para garantir-lhe sobrevivência inicial e gradual reestruturação. Nessa procura, passaram pela suntuosa sala de sua diretoria (que ainda estava iluminada por ricos quadros, que depois desapareceram no grande moedor dos bens herdados de duas gerações de administradores eficientes) executivos e presidentes ad hoc”, raras vezes competentes ou cheios de boas intenções, outras apenas ambiciosos que, sozinhos ou em trio, gastaram muito dinheiro, viajaram bastante e pouco de prático concluíram. Pelo contrário.

 

Até que a luz veio do Oriente. Seu nome é Lap Wai Chan, executivo chinês de quem se falou todo o mal possível, antes que aparecessem a prestigiosa financeira Mattlin Patterson e seus recém associados representantes brasileiros. A Varig é nossa, disseram, à moda antiga e tanto enrolaram as autoridades judiciais, a Anac e a opinião pública que quando a VarigLogistic americana se prontificou a participar da firma brasileira batizada pelo nome de Volo do Brasil, criada sob medida pelos sócios Audi, Haftel e Gallo, somente o SNEA desconfiou do direito da novata adquirir legalmente a VarigLog, na época um dos setores mais dinâmicos da Varig S.A. Com dinheiro em maioria chinês e portanto acima do 20% permitido, a VarigLog foi a ganhadora do solitário leilão judicial celebrado em julho de 2006 e ficou com o espólio da Varig pagando US$ 20 milhões. Nove meses depois de uma gestação tumultuada, a mesma Gol que não se havia interessado de competir no leilão anterior, decidiu (sem explicações cabíveis) adquirir da VarigLog (por 98 milhões cash e 6 milhões de suas ações, agora desvalorizadas) a agonizante, Varig/VRG com a qual disse que arrasaria a Tam nas rotas internacionais. E para esses vôos, inaugurados enfim sem fanfarras, a Gol se preparou durante longos meses, disputou com as congêneres concessões internacionais, encomendou mais 767-300. Perdeu logo dinheiro e, acostumada aos lucros imediatos dos vôos low fare e dos serviços rodoviários, depois de breve e onerosa experiência, os cancelou seguidamente. Assim a Varig/VRG desapareceu de aeroportos outrora amigos, deixando apenas as marcas indeléveis do prestígio conquistado.

 

Entretanto, na VarigLog, começou a luta entre os sócios para ficar com os lucros da vantajosa venda à Gol, com a Matlin Patterson querendo receber prioritariamente de volta da Volo do Brasil o dinheiro que havia antecipado para manter a velha Varig em atividade até o dia do leilão. Mas havia um acordo que concedia até 2011  para a devolução e os sócios brasileiros não soltaram o dinheiro, que em parte estavam utilizando nas atividades da VarigLog, transportando cargas e faturando até R$ 80 milhões ao mês. Mas pareceu à Matlin Patterson que a administração não fosse transparente, feita de maneira muito pessoal, que incluiu a transferência para a Suíça de US$ 89 milhões. Até que a Justiça afastou os três brasileiros da Volo Brasil da administração da VarigLog, considerando “temerária” sua gestão e a entregou a Lap Chan, que se tornou assim talvez o único estrangeiro no país dono e gerente de uma companhia aérea brasileira. E quando ele, há dias, contrariando o compromisso assinado diante da justiça brasileira, autoriza que os recuperados depósitos na Suíça sejam utilizados para reembolsar aos credores os adiantamentos feitos antes da venda à Gol, a Justiça de São Paulo o convoca e o multa em US$ 1 milhão. Mas antes da intervenção da Polícia Federal, Lap Chan havia deixado o país.

 

Faltavam mais esses contornos policiais para deteriorar a memória de uma imagem e de um prestígio que até pouco mais de uma década eram o orgulho daquela que foi a maior empresa aérea do país. Muitos se aproveitaram de seus bens físicos, mas ainda há um punhado de fieis que defende o seu espólio moral. Nomes de executivos, tradições, recordes. Nada a ver com os 767 quase parados, com suas filiais no exterior desaparecendo uma a uma, com a VarigLog perdendo mercado por falta de recursos. Já não bastam para lembrar um patrimônio brasileiro que está sendo perdido para sempre, o simbolismo da nova Flex engatinhando com vôos charter para o Nordeste, nem a solitária VEM, oprimida por direitos trabalhistas, cujas oficinas de manutenção ainda recebem precioso oxigênio da Tap, que a adquiriu.