A VARIG É APENAS UM FANTASMA
VOADOR
A fusão anunciada pela Gol
acaba de uma vez com a imagem da Varig. Sobram alguns códigos de reserva nos
vôo para a América Latina, mas desaparece o essencial, o nome nos aviões. Eles
serão cancelados e substituídos pelo nome da Gol, a não ser (mas não é
garantido) nas poucas aeronaves que voarão para Bogotá, Caracas, Santiago e
Buenos Aires. Na rede doméstica, a partir de dezembro, desaparece o código RG,
que identificava a Varig e entra o G3 da Gol. E também os uniformes serão unificados.
O desaparecimento da marca
Varig é apenas o último capitulo de uma história, contada pela Gol quando
decidiu adquiri-la por 320 milhões de dólares. Segundo ela, caberia à velha e
tradicional empresa voltar a operar nas rotas internacionais, aproveitando seu
prestígio, ainda elevado apesar dos desastres financeiros. Mas, pior que Dédalo
em matéria de planejamento, a Gol esqueceu um detalhe essencial: precisava
dotar a nova Varig de asas modernas, pois os 767-300 eram parecidos com as asas
de cera que derreteram em vôo, tirando à aérea a capacidade de competir com as
máquinas atualizadas das congêneres. Assim a razão principal da compra feita
pela Gol faliu seu objetivo e custou várias centenas de milhares de dólares
perdidos nas rotas européias. Depois a Varig ficou por meses no banho-maria,
replicando de maneira desorganizada os vôos doméstico da Gol, ganhando shares
insignificantes de participação de mercado doméstico e perdendo mais dinheiro.
Tudo por falta de
planejamento. Assim um dos poucos ativos da velha Varig, seu prestígio, perdeu
consistência e sobrou apenas o programa Smiles, com seus milhões de
participantes que para aumentar seus créditos em milhas garantiam fidelidade
aos vôos da aérea. E a Gol decidiu valorizar o programa, transformando o Smiles
numa unidade de negócio, que capitalizará a procura da nova Gol e da ex-Varig,
através de uma estrutura autônoma dentro da aérea, que supostamente terá quase
500 funcionários administrativos. E, para variar, foi criada para os vôos na
América Latina uma variante na econômica, chamada classe Confort, com mais
espaço num número limitado de poltronas, mais caras e valendo 25% mais milhas
para os usuários.
Da Varig, nesse mexe-mexe
desesperado para reconquistar posições perdidas no imaginário dos viajantes,
sobraram o hambúrguer de picanha que será servido em vôos “nobres” e a intenção
de delegar ao outrora famoso serviço de bordo da aérea riograndense o compito
de cancelar a lembrança negativa dos cardápios da Gol. Daqui a uns meses nada mais
ficará da Varig na nova Gol. Sem nome, sem uniformes, sem material
publicitário, a ex velha Varig, chamada depois de VRG será apenas uma lembrança
na memória dos funcionários que a ela pertenceram e que, eventualmente, estarão
ainda integrando a empresa unificada. O processo é chamado de evolução, mas a
impressão de quem entende do negócio é que se trate apenas de uma arrumação, de
uma reestruturação planejada às pressas para evitar mais perdas de receita, que
até o bilionário Constantino Jr. está tendo dificuldades para enfrentar e que
preocupam bastante os acionistas. Mas seu ponto essencial, ou seja o prático
desaparecimento da Varig, equivale a uma certidão de incompetência que está
sendo conferida à Gol, assinada por analistas e por executivos das congêneres
inconformados com o desperdício de 1,2 bilhão de reais, para demolir um nome e
uma aérea que por quase 70 anos haviam brilhado no universo da aviação
comercial.
Mas talvez seja melhor
assim. Depois de se envolver em dívidas bilionárias, de contribuir para afundar
duas de suas melhores criaturas, a Fundação Rubem Berta e o Aerus, a Varig da
década de 90 fez tentativas corajosas para sair do fundo do poço, neutralizadas
por forças internas ambiciosas quanto incompetentes. E passando de mão em mãos,
acabou sendo loteada entre chineses e brasileiros, entre negocistas e supostos
profissionais, perdendo o brilho, o prestígio e seus melhores funcionários.
Apenas a VEM, graças á persistência portuguesa, conseguiu se reestruturar. O
resto, a VarigLog e a VRG ficaram á deriva, até a primeira sair das manchetes
diárias e se acomodar nos braços da irmã, chinesa de nome mas brasileira de
nascimento, e a segunda aterrissar depois de um vôo inglório no reino anônimo
dos fantasmas .
Como tal, agora o seu
destino é perturbar para sempre quem contribuiu para esse melancólico desfecho,
sugando suas últimas fontes de resistência, pois agora apagou mesmo. E´ apenas
um fantasma voador.