À PROCURA DE PESQUISAS CONFIÁVEIS

 

Quem escreve já pesquisou para a Embratur e para a Riotur dados sobre as características do fluxo de visitantes nacionais e estrangeiros e as respectivas opiniões em relação ao país ou à cidade que estavam visitando. O objetivo dos “surveys”, realizados no Rio de Janeiro, em conjunto com firmas especializadas, era identificar os pareceres dos turistas, favoráveis ou contrários, e aproveitar suas sugestões ou críticas relacionadas com os produtos oferecidos aos visitantes. Entre eles, os serviços hoteleiros, eventos motivadores da viagem, belezas naturais, impactos produzidos pelo contato com as atrações da cidade e com os moradores, ocorrências ou imagens negativas.

 

Havia tudo um trabalho de preparação: antes era quantificado o universo a ser investigado, eram definidas as localidades nas quais haveria a pesquisa, o numero de entrevistas, e as perguntas eram elaboradas para permitir ao turista de responder sem ser induzido ou influenciado pela estrutura da frase. E era utilizado, de preferência, pessoal técnico com experiência, havendo também o recurso a estudantes de turismo, antes treinados e devidamente esclarecidos sobre os objetivos da pesquisa. Os entrevistadores de visitantes estrangeiros deviam, obrigatoriamente, conhecer o idioma inglês, mas havia casos nos quais a preferência era para o francês, o alemão, o italiano ou o espanhol. De fato, as pergunta feita por entrevistadores que não conheçam bastante o idioma, causam respostas inadequadas ou entendidas parcialmente, que os receptores compilam alterando, às vezes, o pensamento do respondente.

 

O “Ibope” é um exemplo concreto de um instituto de pesquisa que atua com competência em vários setores econômico do Brasil. Sua estrutura lhe permite segmentar entre as regiões um numero de perguntas ponderado de acordo com o total do universo pesquisado. O esquema é de eficácia comprovada, como demonstram os resultados obtidos nas previsões de participação partidária ou individual por ocasião das eleições políticas. E muitas outras organizações menores atuam no setor de pesquisas, oferecendo amplas garantias de seriedade profissional.

Mas existem também grupos, cujas pesquisas carecem de garantias técnicas, pela falta de metodologia e de pesquisadores com capacidade profissional. Eles tem a habilidade de captar as simpatias das chefias de organizações que procuram informações indispensáveis e de realizar pesquisas com resultados “sobre medida”, que gratificam às expectativas da empresa comissionaria e que são até publicadas por órgãos da imprensa, equivocados quanto ao valor real dos dados que divulgam. O setor turístico, por sua volatilidade e interesse geral é o mais visado.  

A própria Embratur, tem registrado entre suas piores iniciativas a aceitação de uma pesquisa nacional, dedicada ao turismo, realizada há cerca de uma década sob o patrocínio de uma prestigiosa entidade paulista. Verificou-se, a posteriori, que os questionários haviam sido aplicados, em alguns Estados, por pesquisadores incompetentes, com destaque por aqueles selecionados numa universidade do Norte.

 

No Rio de Janeiro, uma universidade que realiza cursos de turismo, divulga com freqüência, através de um complacente jornal carioca, os resultados de pesquisas que seus diretores tem a habilidade de aplicar, sempre que se verificam fatos de importância para o turismo receptivo. O apoio dado à maioria dessas pesquisas pela Riotur, se transforma num selo de garantia sobre seu conteúdo. Por isso, na semana passada, o resultado de uma pesquisa sobre o dengue, foi divulgado até na página social redigida por prestigiosa colunista do Jornal do Brasil. Numa breve nota, ela assinalou a preocupação dos hoteleiros pelos reflexos negativos da epidemia sobre o turismo.

 

Apesar do “obvio ululante” da resposta dada aos “pesquisadores”, faltou ser esclarecido como, aonde e em que número o suposto “mix” de respondentes, ao ser questionado sobre o momentoso assunto, tenha afirmado que o turismo é, ou poderá ser, prejudicado pela anormal difusão do mosquito causador da perigosa doença. Mas a pergunta é: havia necessidade de uma pesquisa para coletar pareceres óbvios ? Ainda mais sabendo que há cerca de 50 milhões de enfermos de febre amarela e malária, doenças já radicadas em grande número de países da África e em amplas regiões do América do Sul e que essa ameaça para os turistas, divulgada nominativamente pela Organização Mundial de Turismo, não tem afastado, por exemplo, os milhões de visitantes estrangeiros do Quênia ou da África do Sul, conforme registrado no “Compêndio de Estadísticas del Turismo” publicado anualmente pela OMT.

 

O homo sapiens sabe que a vida moderna lhe impõe conviver com todo tipo de adversidades, das quais às vezes encontra dificuldades para se defender, sem a ajuda do Estado. Por isso não havia necessidade de enfatizar supostos reflexos negativos do dengue sobre o turismo do Rio, nem precisava ser utilizado o fácil recurso de atribuir a um suposto universo temores generalizados, se há a confiança de que a tardia intervenção sanitária das autoridades responsáveis possui o potencial para sustar, no curto prazo, a proliferação do aedes aegypti.