A DIFÍCIL ARTE DE VIAJAR POR VIA AÉREA

Aumenta o número de obstáculos que aguardam os passageiros nos aeroportos

 

Em nome da segurança, todos os passageiros devem aceitar controles e restrições quando se apresentam nos aeroportos para viajar. A história vem de longe, daquele 11 de setembro em que os terroristas transitaram livremente pelos aeroportos dos Estados Unidos, saindo de Boston, Newark e Washington tendo como meta principal as torres gêmeas de Nova York.

 

O desastre inspirou às autoridades americanas as maiores restrições à liberdade individual nunca antes vistas nos EUA. E graças à tensão permanente que a U.S. Transportation Security Administration criou, informando diariamente sobre o nível de segurança, os americanos passaram dias e noites de tensão e muitos deles perderam o prazer de viajar por via aérea. Em terra a tensão diminuiu depois que o presidente Bush, se apresentando como grande protetor da segurança nacional, conseguiu se reeleger. Mas aumentou nos aeroportos, onde uma complexa máquina governamental e a pressão comercial de firmas construtora de “gadget” de segurança, implantaram um verdadeiro festival de controles, submetendo passageiros e bagagens a formas de triagem nunca vistas.

 

Depois de quase oito anos, em nome do terrorismo, o número de maquinas e de controles aumenta, com a vinda de scanners de todo tipo. Um deles atuava como um aparelho de raios X, tendo provocado reações de parte dos viajantes, pois ameaçava a última de suas “privacies”, ou seja a intimidade de seus corpos, sendo por esse motivo eliminado. Mas os fabricantes não param e, atualmente, estão concentrando seus esforços de venda nos novos aeroportos. Num deles, em Indianápolis, que começará a funcionar no outono, estão sendo instaladas as últimas novidades em matéria de segurança. Desde as instalações, a prova de explosões, à distancia de 300 “feet” que separa a aérea de estacionamento dos carros do terminal e que inclui barreiras de cimento para bloquear qualquer veículo carregado com explosivos que tente avançar na área de check-in. Somente no equipamento de inspeção das bagagens, atuam nove scanners  (que custaram US$ 1 milhão cada um) com capacidade para detectar explosivos em 3600 malas por hora .

 

Tudo isso, e muito mais, está sendo instalado nos EUA, onde o novo aeroporto internacional de Dallas-Fort Worth promete aparelhos ainda mais sofisticados. E os passageiros ? Eles, os americanos, em grande maioria aceitam até tirar sem comentários os sapatos, se o inspetor desconfia, enquanto aqueles que vem da Europa resistiram sem sucesso à exigência de fornecer dados pessoais para desembarcar nos EUA. Agora deverão preencher sua ficha até 72 horas antes da viagem, para poder embarcar só depois de receber a autorização americana.

 

Na Europa, em geral, não havia tanta sofisticação, mas depois que a União Européia decidiu unificar os procedimentos de controle dos embarques, as coisas complicaram. O documento, que entrou em vigor em novembro de 2006, foi mantido secreto por vario tempo e teve aplicações diferentes, de acordo com a interpretação das autoridades de cada país. No aeroporto de Lisboa um folheto amarelo informa quais objetos o passageiro pode levar a bordo em sua bagagem de mão. E quais não são permitidos.

 

O problema, nos aeroportos europeus consiste em saber a interpretação dada pelos inspetores aos itens “not allowed”. Parece garantido que um creme embalado numa garrafa plástica de até 100 ml passará sem problemas. Mas se uma mulher, por exemplo, precisa de mais de um produto desse tamanho, para sua beleza, saúde ou higiene pessoal não poderá superar o número deles que cabem deitados num saco plástico transparente de 20 x 19 centímetros. Não é permitido mais de um saco plástico por passageiro e todos os líquidos, inclusive medicinais e comida para crianças, devem ser fechados em outro saco plástico, com as respectivas receitas médicas. Qualquer item que não se inclui na lista adotada pelo aeroporto, é seqüestrado. Assim, por exemplo, cremes e aparelhos de barbear, com lamina, loções, dentifrícios, perfumes são permitidos em certos aeroportos e proibidos em outros. O pior acontece se o viajante adquire a bordo artigos “duty free” para si ou para dar de presente, pois se deve tomar outro avião de conexão para seu destino final, poderá perder todos ou parte dos perfumes ou loções se superam o número permitido pela “security” do novo aeroporto.

 

De fato, conforme salientou numa reportagem de três páginas o diário espanhol “El periódico” de 30 de maio, o texto de segurança divulgado pela União Européia é omisso em classificar todos os itens que não devem entrar na bagagem de mão. Os complementos ficam com os fiscais de cada país e muitas vezes são cometidos excessos. Há milhares de cartas de protesto escritas por viajantes que se sentem lesados. Uns não gostaram de tirar os sapatos, pois nenhuma norma prevê esta obrigação; há outros que reclamam porque são obrigados a tirar o cinto das calças (que podem cair) ou pelo fato que o vidro de creme de 150 ml estava visivelmente usado pela metade e portanto não excedia os 100 ml permitidos.

 

Segurança, security, sicurezza, palavras que alegram ou que espantam, quando relacionadas com a possibilidade de atentados terroristas. Mas, ao ver a multiplicação de medidas dedicadas a garantir a segurança pública, surge a dúvida sobre sua real eficácia. Sabedores da existência de controles tão severos, ainda haveria terroristas tão primários dispostos a enfrentar a inspeção no aeroporto trazendo alguma arma química pouco visível e tão poderosa para fazer explodir uma aeronave ? Ou uma tesourinha de unhas, ou uma lamina de barbear, com a qual pensa que obrigaria o comandante a mudar de rota ? Se esses subdesenvolvidos mentais ainda existem, bem venham mais inspeções e controles nos aeroportos. Em caso contrário, não parece justo tratar cada passageiro como se fosse um terrorista potencial e, as vezes, submete-lo a verdadeiros vexames. Mas não há opções, por enquanto.

 

O voto é que não aconteça quanto a prestigiosa revista americana, “The New Yorker” ilustra numa de suas últimas publicações. Nela há uma charge apresentando um homem totalmente nu que atravessa o controle eletrônico de segurança, seguido por todos seus objetos pessoais e malas espalhados num carrinho, que desliza ao seu lado para passar sob uma máquina poderosa, à procura de um item supostamente perigoso. George Orwell teria gostado de incluir em seu livro também essa máquina infernal.