A AZUL FICA IMPACIENTE, COM MOTIVOS

 

A Azul, do executivo David Neeleman, está dando sinais de impaciência. Seus planos operacionais estão sendo realizados, mas até agora não da maneira que esperava. Voa de Campinas para o Sul e para Salvador, voará em breve para Recife, já provocou a reação da Tam, tem a pressão da Gol, mas ainda não sabe se e quando poderá atuar nas 22 rotas de sua preferência, saindo do aeroporto carioca Santos Dumont.

 

Neeleman foi explicito na entrevista que concedeu em 1º de fevereiro ao Jornal do Brasil. Ele disse “Quero voar para o Santos Dumont” e salientou “não compartilho a idéia de que vamos fechar um aeroporto porque temos que ajudar outro”, fazendo obvia referência á pressão que o governo do Estado exerce para que os vôos domésticos continuem operando no Galeão. “Quem faz isso, prejudica a cidade”, afirma, numa acusação direta que não deve ter agradado ao governador Sergio Cabral.

 

O criador da Azul ficou impaciente, e na semana passada tentou conseguir um mandado de segurança para iniciar vôos saindo do aeroporto Santos Dumont, que lhe foi negado pela juíza da 16ª Vara da Justiça Federal da 1ª Região. A Azul queria autorização para voar entre Santos Dumont e Viracopos, ou seja pretendia abrir uma brecha nas restrições vigentes desde 2005, que limitam as operações do aeroporto do Rio somente para o aeroporto de Congonhas,em São Paulo. Outros vôos podem ser feitos somente com turboélices com capacidade de até 50 assentos. Mas não desistiu. Depois de ter seu pedido de primeira instância recusado, recorreu ao Tribunal Regional Federal e aguarda a resposta.

 

Neeleman tem excelentes relações com o ministro da Defesa, que através da Anac, Agência Nacional de Aviação Civil, define sua política para a aviação comercial. E tem demonstrado estar abertamente a favor de uma melhor utilização do aeroporto Santos Dumont, cuja capacidade está sendo desperdiçada em parte, para manter em atividade o aeroporto internacional do Galeão, no qual todavia pousa um número crescente de vôos procedentes do exterior. Segundo o governo do Estado a manutenção das operações domésticas no Galeão garante um fluxo maior de aeronaves internacionais, cujos passageiros tem destino final em outras cidades ou de lá chegam, dependendo de uma conexão doméstica imediata para agilizar a sua viagem. E, olhando mais longe, há o Campeonato Mundial de Futebol de 2014, a ser realizado em 12 cidades e que exigirá conexões rápidas para facilitar a movimentação dos atletas nos estádios das cidades que serão designadas pela FIFA.

 

A tentativa da Azul de obter a autorização para operar entre Campinas e o Santos Dumont é sem dúvida uma habilidosa manobra para manter em foco o problema, que dentro de poucos dias será debatido em audiência pública, marcada para acontecer em Brasília. De outro lado, a iniciativa do Sindicado Nacional das Empresas Aeroviárias, Snea, de invalidar a reunião anterior organizada pela Anac, além de expressar o interesse da Tam, principal interessada em manter a sua sede de Congonhas como principal aeroporto, pode ser considerada uma tentativa obrigatória, mas de improvável sucesso. A Anac tem recorrido á lógica para justificar a necessidade de melhor aproveitar um aeroporto de localização privilegiada como o Santos Dumont, que não está sendo utilizado como mereceria, e conta com o apoio majoritário de numerosas entidades turísticas cariocas, interessadas em facilitar a vinda e a movimentação de executivos e de turistas nacionais, atualmente obrigados a correr alguns riscos e a gastar tempo e dinheiro em seus embarques e desembarques no Galeão.

 

Mas não é somente isso que justifica a impaciência da Azul Linhas Aéreas. Tem outro ponto, técnico e estratégico, que pode fazer a diferença, se a competição com Gol e Tam se mantiver acesa como está atualmente: vale lembrar que a Azul alterou a sua encomenda á Embraer de aeronave Emb.195, solicitando a inclusão de modelos Emb.190 para poder dispor de uma aeronave que transporta menos passageiros mas, também, exige pistas menores para os pousos e as decolagens . Poderá assim utilizar o Santos Dumont para seus principais vôos domésticos, enquanto as congêneres Gol e Tam, com seus Boeing e Airbus não poderão, por exemplo, voar non-stop do Rio para Salvador ou para o Nordeste. E Neeleman foi taxativo, dizendo ao JB que, se o Santos Dumont não for aberto ao tráfego doméstico é melhor fecha-lo, transforma-lo num “parquezinho” e forçar “todo mundo que quer ir para São Paulo a embarcar no Galeão. Depois fecha Congonhas também, todo mundo pode ir para Guarulhos”.

 

Para a Azul, que daqui a uma semana comemorará seus primeiros 30 dias de operação, a luta para ter rentabilidade continua. Demonstrou ser uma empresa ágil, esforçada, mas a qualidade de serviços e a sua firmeza para superar a concorrência com tarifas baixas não foram suficientes, pois Tam e Gol baixaram os preços e alteraram suas rotas para anular os efeitos dos vôos non-stop da rival. Mas se a oferta excessiva de assentos tem causado resultados operacionais negativos para todas, o destaque foi para a novata Azul, pois é difícil pagar os custos operacionais de 5 aeronaves com a média de 45% de aproveitamento nos respectivos vôos. E para superar essas limitações, além de mais aviões, a Azul está precisando realizar seus embarques e desembarques no Santos Dumont, como havia programado.

            

Em caso contrario, poderá ser necessário que Neeleman & Cia alterem os planos da empresa. Talvez se dedicando, em regiões mais afastadas, aos milhões de passageiros potenciais que em épocas recentes – segundo os executivos da Azul – teriam subido da classe D para a C. Lá eles estariam aguardando a oportunidade para realizarem seus primeiros vôos, depois de décadas nas quais forçosamente tiveram que viajar de ônibus. Poderiam optar pelo avião, pagando a mesma tarifa do ônibus, como já acontece no vôo de Campinas para Vitória, comercializado a R$ 118 pela Azul.

Mas antes esse universo precisa ser quantificado, segmentado por rotas, com muito mais aeronaves para criar rotatividade em volta de outro hub, diferente do Santos Dumont. Seria impactante repetir no Brasil a proeza da Southwest americana, se apesar do apoio do ministro Nelson Jobim e da presidente da Anac, o projeto de transferência dos vôos domésticos do Galeão para o Santos Dumont for rejeitado. Alguém acredita nessa possibilidade ?