2008, ANO DE CRISE NA AVIAÇÃO E NO TURISMO

Indústria hoteleira precisa investir em congressos e eventos

 

Na semana passada apareceram na imprensa várias notícias de programas de incentivo ao turismo e de investimentos nunca feitos antes pelo Ministério do Turismo e pelas redes hoteleiras do país. Essas iniciativas parecem ignorar que o setor turístico e a indústria de transportes aéreos estão atravessando novas crises, depois de apenas dois anos de melhoria.

Publicações americanas especializadas enfatizam que a bolha imobiliária empobreceu muita gente nos EUA e que, ao mesmo tempo, o enorme aumento do preço do petróleo está criando sérias dificuldades para as empresas aéreas. De fato, o querosene de aviação já está representando 34% ou mais dos custos operacionais da maioria das companhias e está obrigando todas elas a reverem rotas e freqüências, para minimizar as perdas. Nos EUA, fonte principal do tráfego aéreo mundial, as duas crises, somadas, estão levando milhares de famílias a cancelarem suas tradicionais vacations de verão fora do país e até para lugares que podem ser alcançados de ônibus ou de carro. Num artigo publicado pelo The New York Times pode ser lido que cerca de 10 milhões de famílias estão em dificuldades, depois de perderem dinheiro nos compromissos financeiros assumidos visando ter sua nova moradia. E estão cortando gastos não essenciais, para enfrentar aumentos de preços que afetam todos os meios de transporte, agora que o galão de gasolina chegou a US$ 4,00, num pulo nunca registrado.

 

Sem ligar as dificuldades econômicas do país, a inflação e a alta do petróleo às aventuras bélicas do presidente dos EUA, as analises e previsões ligadas ao movimento turístico deste verão, deploram que por causa da inflação os americanos tenham que alterar hábitos tradicionais, entre os quais as férias sempre ocuparam lugar destacado. E sem os milhões de viajantes  saindo dos EUA para países da Europa e do resto do mundo, as estatísticas internacionais deverão registrar uma caída vertical no fluxo turístico de 2008. Da mesma maneira, segundo a IATA, a Associação Internacional que reúne as empresas aéreas do mundo, a crise do petróleo deverá alterar totalmente os resultados da indústria e faz prever perdas acumuladas de até 10 bilhões de dólares, depois que no início do ano haviam sido estimados lucros próximos de US$ 5 bilhões.

 

Nesta conjuntura tão negativa para o turismo, que deverá afetar a maioria dos países nos quais essa atividade representa uma de suas principais fontes de receitas, talvez foi intencional, mas poderia ter sido inoportuna, a onerosa ação promocional do Ministério do Turismo e da Embratur que recentemente convidou operadores e agentes de mais de 30 países para realizarem um longo tour pelo país.  Todos apreciaram passear de graça pelo Brasil e conhecer melhor o Rio de Janeiro, mas diante da crise que afeta também os paises mais desenvolvidos, parece duvidoso que a divulgação das atrações dos destinos brasileiros provoque uma resposta satisfatória de parte dos estrangeiros considerados visitantes potenciais. Ainda mais por que várias aéreas estão cancelando os vôos que perdem passageiros e rentabilidade, em contraste com outras, que para manter seus nomes em vista na imprensa, anunciam projetos de crescimento que, se a situação mundial não mudar, ficarão apenas no papel.

 

Voltando ao novo trend previsto no turismo dos EUA, foi peculiar a reação dos usuários à nova conjuntura. Parecem ter aceita a mudança que afetará  suas  vacations , que com espírito desportivo passaram a chamar de staycations . Ainda sem espaço nos dicionários, sua tradução em português poderia ser “ficação”, palavra que não se encontra no Aurélio, mas corresponderia a “não sair” ou “ficar em casa”, assim como vacation indica “sair de férias”.

 

Para a estrutura turística do Brasil, em modesto crescimento, a redução do fluxo de americanos não será tão fácil de ser absorvida, em particular por seus reflexos negativos na ocupação hoteleira. Com isso, na melhor das hipóteses, as anêmicas estatísticas anuais permanecerão em 2008 no nível de 5 milhões de turistas, um índice pequeno demais, do qual o país não consegue sair, apesar de suas atrações e do tamanho continental.

 

Diante desta realidade, no momento destoam as otimistas declarações oficias do governo e da indústria hoteleira, publicadas na semana passada. Não podiam desconsiderar as incógnitas do futuro e os graves problemas deste 2008. Houve um enfoque distorcido, ao atribuírem a longínquos eventos internacionais, ainda incertos, efeitos multiplicadores sobre o fluxo turístico. Trata-se da Copa do Mundo de Futebol de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, a ser realizados no Brasil. Em particular existem problemas logísticos para superar, em relação às Olimpíadas no Rio de Janeiro, com dificuldades não comparáveis com aquela enfrentadas e resolvidas quando a cidade conseguiu ser a sede dos Jogos Pan-Americanos.

 

Em primeiro lugar, ainda faltam 18 meses para o dia 2 de outubro de 2009, quando será divulgado se o Comitê Olímpico Internacional escolheu o Rio, que está em competição com outros três fortes candidatos, como Chicago, Madri e Tóquio. E´ uma incógnita, mas a Prefeitura do Rio de Janeiro já providenciou a  transferência para o COI de US$ 500 mil, para confirmar a inscrição da cidade na lista das candidatas. Será uma longa disputa internacional, para a qual o Congresso Nacional deverá aprovar a verba de R$ 85 milhões já autorizada pelo presidente Lula, para estudos, consultorias e ações promocionais de suporte à candidatura do Rio.   

 

Em relação à organização da Copa do Mundo, há um grande esforço para garantir a disponibilidade de estádios e de alojamentos nas cidades onde serão realizadas as diversas fases eliminatórias, antes da final no Maracanã. No Rio já há um número de quartos em hotéis bastante elevado, se é verdade que os estabelecimentos de 4 e 5 estrelas lotam somente nos dias de Carnaval e nos festejos de fim de ano. Assim, pareceu desproporcionado o anúncio do presidente da Associação de Hotéis do Rio de Janeiro (ABIH-RJ) de que serão construídos nos próximos anos, em tempo para hospedarem a Copa do Mundo de 2014, dez novos hotéis na Barra e 9 na Zona Sul, dos quais 5 em Copacabana. O excesso poderia causar as mesmas dificuldades de aproveitamento rentável enfrentadas pela rede hoteleira de São Paulo, além de agravar os problemas de tráfego e de estacionamento na Zona Sul e na Barra do Rio, que precisariam ser resolvidos antes da construção de novos hotéis. Afinal as competições desportivas vão ter a duração de apenas algumas semanas. E depois ?  Desde agora, o maior desafio que aguarda as autoridades está na necessidade de refazer no exterior parte da imagem do Rio de Janeiro, exatamente aquela que está causando o afastamento de numerosos eventos e congressos internacionais. Rio sempre foi um dos lugares preferidos para a realização destas manifestações, que reúnem às vezes milhares de participantes. Mas sem garantias de segurança pública, contando apenas com o normal fluxo turístico, muitos hotéis, novos e tradicionais, se não tiverem a preciosa contribuição de numerosos eventos internacionais, poderão ter um futuro bastante incerto.