Outras histórias que o tempo levou (5)

RUBEL THOMAS CONTRA-ATACA E DEMONSTRA QUE NA SUA PRESIDÊNCIA CORTOU MUITOS CUSTOS

 

Outro dia, um telefonema de Rubel Thomas nos chamou à realidade. O ex-presidente da Varig interrompeu seu silêncio de mais de dez anos para rebater as afirmações de nosso último artigo, segundo as quais na sua administração tudo aumentou, inclusive os custos. Antes, numa conversa com palavras firmes mas em tom amigável, após esclarecer que desconhecia o conteúdo do texto anônimo de Plato, do qual anunciamos a publicação neste site, nos alertou de que – caso fosse de qualquer forma ofensivo ao seu nome – se reservava o direito de recorrer ao advogado Amorim, para responsabilizar judicialmente a Aeroconsult e este redator pela sua difusão. De fato, já sabíamos que a lei de imprensa é bastante clara sobre a responsabilidade de quem publica textos, ainda que de autor desconhecido, que podem ofender outra pessoa. Aliás, foram as dúvidas sobre a conveniência de expor nosso site à eventual ação judicial, que nos levou a transferir mais de uma vez sua data de publicação. E a salientar sempre que concordávamos apenas parcialmente com algumas das críticas escritas por Plato.

 

Como jornalista, não teríamos o menor receio de enfrentar uma ação legal, se decorrente da publicação de fatos verdadeiros e esclarecedores sobre a administração de Rubel Thomas, ou de qualquer outro ex-executivo da Varig. Já publicamos muitos textos sobre eles, em maioria com críticas como aquelas que podem sem lidas no artigo de domingo passado. E publicaríamos as considerações de Plato sobre Thomas e outros, se o autor se identificasse e se responsabilizasse oficialmente pelo texto. Sem isso, pensando bem, seria até covarde de parte nossa utilizar o anonimato para divulgar afirmações ofensivas, carentes de comprovação, redigidas por outra pessoa.

Isso, sem considerar que durante longas décadas pertencemos à família Varig e que, nos anos transcorridos sob a chefia do ex-presidente, tivemos a oportunidade de apreciar sua personalidade humana e as qualidades de executivo que, a nosso ver, sempre o distinguiram de outros diretores.

 

Todavia, que houve erros entre 1990 e maio de 1995, quando foi forçado a deixar a presidência da Varig, não há a menor dúvida. Ele mesmo, na nossa conversa o admitiu. Sem repassá-los à administração colegial, ou tentando minimiza-los lembrando que não estava sozinho e que nunca adotou decisões sem o aval de seus diretores. Ou seja, apesar de traído, não ignorou suas responsabilidades, ou evidenciou que sua eleição, depois do falecimento de Hélio Smidt, aconteceu também por falta de outro candidato melhor qualificado.  Essa carência ficou evidente também depois de seu afastamento, quando foi substituído por um diretor originário do Sul, que no curto período em que esteve na presidência só demonstrou despreparo para o cargo e muita ambição, num nível nunca mais visto no 4º andar da sede carioca da Varig. E teve início a longa série de presidentes, dos quais os mais qualificados não recebiam das diretorias o apoio suficiente para realizar seus planos de renovação, enquanto os supostos gênios importados de outras empresas, ou eram logo dominados pela FRB ou só conseguiram agravar a crise financeira da companhia.

 

Falando francamente, em seu telefonema Rubel defendeu as providências que tomou ao longo de cinco anos e na fase mais crítica da crise, para melhorar a performance da empresa e para reduzir os custos, conseguindo no primeiro trimestre de 1995 fechar o balanço da Varig com mais de US$ 100 milhões de lucro. Essa reação, afirmou, foi interrompida pela manobra que o derrubou. E comentou que estranha ainda hoje, que um memorando estritamente confidencial, datado 13 de abril de 1995, assinado por Odilon Junqueira, na época superintendente geral de Recursos Humanos, encaminhado aos presidente, vice-presidentes, diretores, consultores e superintendentes gerais da empresa, tenha permanecido sem a menor divulgação, apesar de conter um relatório detalhado sobre a inteira estrutura da Varig, desde dezembro de 1991 até março de 95. Essas informações, afinal, também fazem parte das “Histórias que o tempo levou” e documentam, com números oficiais, a situação da companhia, poucos meses antes que tivesse início o processo que, após várias tentativas inúteis de salvação, levaria a Varig à virtual falência.

 

Rubel nos remeteu por fax as 12 páginas do documento, cujos dados mais explicativos da real conjuntura da Varig, naqueles dias, resumimos a seguir. Entre dezembro de 1991 e março de 1995 a empresa reduziu o número de seus funcionários de 25,7%. De um total de 28.870 ( 26.723 trabalhando no Brasil e 2.147 no exterior ) ficaram 21.451, dos quais 19.896 no país e 1.555 lá fora. Entre os brasileiros 46,5% estavam na faixa de idade entre 28 e 37 anos, 9,2% entre 48 e 57 e 123 tinham mais de 58 anos. Os tripulantes técnicos, que eram 1.686, baixaram para 1.573 e os de serviço de 4.094 para 3.342. A quantidade de horas extras diminuiu no Brasil de 20,2% em número, mas seu custo para a empresa subiu de 25,5% devido aos aumentos salariais que se verificaram no qüinqüênio. Os setores com número maior de funcionários reuniam 3.957 pessoas na manutenção; 3.342 comissários; 2.588 no tráfego aéreo; 1.496 nas vendas de carga e 1.175 na venda de passagens. Quanto ao salários, calculados no Brasil ao cambio do dólar Iata  e aqueles no exterior unificados todos em dólares americanos, em março de 1995 totalizavam US$ 27.373.070, dos quais US$ 23.553.759 pagos no Brasil e US$ 3.819.311 no exterior.Comparados com os de 1994 haviam diminuído de US$  349.871 e o número total de funcionários havia baixado de 21.866 para 21.451 (- 415).

(Nota: com ou sem a identificação de “Plato”, o próximo será o capitulo final desta História . Provavelmente será dedicado ao nascimento da Varig, apresentando muitos pormenores que a maioria dos leitores desconhece.)