LUZES E SOMBRAS DE VIAGENS
SEM RETORNO
Depois de mais de um ano da colisão que vitimou 154 pessoas a bordo do Boeing da Gol e transcorridos vários meses da noite trágica na qual 199 pessoas morreram no desastre do Airbus da Tam, as causas dos dois acidentes e os respectivos culpados ainda são objetos de polêmicas, apesar de terem sidos identificadas as circunstâncias nas quais ocorreram. Isso já aconteceu no mundo inteiro, com poucas exceções. Há muitas implicações na admissão da responsabilidade por acidentes aéreos, que em geral são provocados pela concomitância de vários fatores, cada um dos quais poderia não ser suficiente para causar o desastre. Assim, hipóteses contrastantes são tecidas em volta do ocorrido, e as partes interessadas lutam para evidenciar os pontos de suporte que lhes são favoráveis. Na reconstrução do ocorrido, prevalecem no início questões de prestígio para as empresas aéreas e para os fabricantes das aeronaves e de seus instrumentos de vôo mais delicados e essenciais. Ao mesmo tempo entram no processo de esclarecimento as analises das performances dos aeroportos e das estruturas de suporte às operações aéreas, juntamente com os respectivos técnicos.
De outro lado, basicamente, as falhas técnicas podem ser atribuídas a erros na cabine de comando, se não for comprovado que as forças da natureza sobrepujaram a resistência física da aeronave. Mas a imprevidência na manutenção ou a incompetência para enfrentar com frieza situações de emergência, exigem investigações mais complexas para serem demonstradas, pois é raro que elas não se combinem com outros fatores adversos. O problema consiste em identificar os pesos específicos que cada parte teve.
Partindo dessas variáveis, entre outras, se houve erros humanos e inevitável a procura dos responsáveis, possíveis réus de homicídios culposos. Mas se os erros decorreram de falhas técnicas, as conseqüências deverão recair sobre quem construiu a aeronave e sobre as fornecedoras dos componentes de segurança. E quando isso ocorre, além das questões de prestígio o debate envolve pagamentos de indenizações milionárias aos parentes das vítimas.
Tudo isso e muito mais, já se encontra fervendo no caldeirão de dois desastres aéreos, que atingiram quase 400 famílias e o prestígio da aviação comercial brasileira, que em passado recente era considerada entre as mais eficientes do mundo. Sem dúvidas, as autoridades demoraram demais para reconhecerem que a soma de uma colisão aérea com a explosão de uma aeronave, além de serem indícios preocupantes de problemas técnicos do setor, antes não avaliados em todo seu potencial, atingiram diretamente o governo. Faltaram planejamento e investimentos de parte de entes governamentais que, por não ter dotado o setor de meios adequados ao seu crescimento, implicitamente foram os responsáveis primários, apesar de indiretos, desses acontecimentos. Depois de meses perdidos, entre declarações e planos inconsistentes, alimentados por um ministro desinformado e pelas partes interessadas em esconder suas falhas, ficou claro que cabia à Infraero culpa pelos desperdícios de fundo destinados a reforçar a estrutura técnica da aviação nacional e à Aeronáutica a responsabilidade pela presença de controladores de vôo não qualificados para exercer com eficiência funções vitais para a segurança do tráfego aéreo e de milhões de usuários.
Mas investigações oficiais, caixas pretas, pareceres técnicos, ou comissões de inquérito evidenciam, mas não determinam, insinuam mas não definem, pois há sempre algo que interfere na plena aceitação de uma ou outra versão. Todavia, nos casos dos dois vôos sem retornos, todos concordam sobre os equívocos nas comunicações entre o Cindacta I e o jatinho Legacy e sobre a omissão que impediu aos controladores de Brasília de informarem o Boeing de que havia outro avião menor voando à mesma altura, na contra-mão. E, no desastre de Congonhas, ficou evidente que se o Airbus estivesse com todos seus equipamentos de frenagem em ordem, as possibilidades de parar sobre a pista molhada do aeroporto teriam sido bem maiores. Mas, com tudo isso esclarecido, continua a procura de nomes para culpar. Os dois pilotos do Legacy, os quatro controladores de Brasília, os mecânicos da Tam ou o computador do Airbus são os preferidos. E de nada vale supor que, se os pilotos se omitiram desligando o transponder, talvez o fizeram porque ninguém os informou de sua importância especial quando voassem, pela primeira vez, no céu amazônico. Ou que, se os controladores não entenderam o idioma inglês na troca agitada de mensagens entre sua torre e o Legacy, a culpa podia ser de quem os admitiu nesse serviço sem dar importância ao fato que apenas balbuciavam algumas palavras do outro idioma. Que os mecânicos da Tam, pressionados pela política da aérea de utilização máxima dos equipamentos e em vista do fato que a própria Airbus admitia que em condições de tempo normais o jato voasse com o reverso de um reator desativado, não podiam imaginar que naquela noite teria chovido em Congonhas e que , sem esse componente do reator funcionando, teria sido muito difícil frear na pista molhada e carente de recursos e espaço suficientes. Que se houve alguma confusão na cabine, se um dos manetes ficou levantado e outro não, se isso gerou problemas no computador e comprometeu a manobra de pouso, devido à falta do apoio dos spoilers e dos flaps, por estar o reverso desativado, quando todas essas circunstâncias se somaram em alguns terríveis segundos, já não havia possibilidade de interferência humana para alterá-las.
Se esses fatos são verídicos, que importância tem saber nomes e sobrenomes dos envolvidos? Eram aviões de passageiros, com pilotos que não eram kamikazes, nem terroristas, que transportavam quase quatro centenas de pessoas para suas residências, suas famílias, seus sonhos turísticos, seus negócios. Todas foram vítimas inocentes e é justo que seus familiares sejam indenizados, não para minimizar a dor da ausência, mas para um ato de justiça, pois em muitos casos as perdas tiveram efeitos econômicos perversos sobre eles. E se alguém deveria ser punido, não seriam o piloto, o controlador ou o técnico, mas sim quem administrou mal os fundos destinados a dotar a aviação nacional de infra-estruturas essenciais para preservar essas e outros milhões de vidas.