AS LÁGRIMAS DE CROCODILO ESTÃO NA MODA

 

A lenda e o folclore contam que o crocodilo derrama lágrimas, depois de devoradas suas vítimas. Nunca vi o animal em seu habitat, e ainda menos depois que ingeriu algo tão estimulante, mas isso está escrito. Verdade ou não, vale como referência. De fato, sempre que há a suposição de que o choro humano não é sincero, costuma-se dizer que o sujeito derramou “lágrimas de crocodilo”.

Ainda sobre as lágrimas, não pode ser esquecida aquela frase que as mães costumam dizer aos filhos pequenos: “homem não chora !”. Mas, talvez, em tempos como os atuais a frase deveria desaparecer de nosso vocabulário. Ou ter uso restrito às academias militares, onde é ainda dada ênfase especial à coragem que se espera dos futuros, potenciais guerreiros. Com as devidas exceções, como aconteceu àqueles marines das forças de ocupação dos EUA no Iraque, surpreendidos chorando de medo durante os ataques inimigos. Uma minoria, é claro, que na hora certa esqueceu a recomendação materna. Mas precisamos lembrar que não são somente o medo ou a dor que fazem chorar : a alegria, também , que reanima o ego frustrado e lhe causa euforia, sob os efeitos de fugazes palavras de elogios.

 

Foi por um desses motivos que Milton Zuanazzi, o tenaz presidente da Anac, chorou em Brasília durante a reunião do Conselho Nacional de Turismo. Foi o texto lido pelo brilhante jornalista Cláudio Magnavita que o emocionou até às lacrimas. Pelo que se sabe, era a primeira vez, depois de longos meses passados na chefia da Agência, que – de acordo com um release divulgado pela internet - ele ouvia “um texto de defesa de sua atuação à frente da Anac” redigido, supostamente, pelo presidente da Abrajet em nome dos jornalistas e escritores de turismo.

 

Numa época de processos sem fim, de acusações que envolvem bicheiros, parlamentares, policiais, publicitários, industriais, entre outras categorias, as lacrimas públicas de alguns indiciados já fazem parte do show promovido no grande circo nacional da corrupção e da incompetência. Na Anac, a diretora Denise Abreu já havia precedido o presidente, chorando ao refutar as acusações que acabaram levando-a a se demitir. Mas Zuanazzi teria chorado supondo que o desagravo compensava tudo o que foi dito e escrito de negativo contra ele. De fato, raras vezes havia antes acontecido que fontes tão diversas tivessem, como no caso do presidente da Anac, opiniões negativas tão parecidas sobre a atuação de um executivo. Em particular, houve concordância plena sobre sua incompetência, tanto nas manchetes de quase a totalidade da imprensa, como nas palavras de dezenas de políticos e nos textos divulgados por entidades de prestígio, quais a OAB, a Ordem dos Advogados do Brasil. Sem contar os usuários dos serviços aéreos, que segregados nos aeroportos nos piores dias do apagão, atribuíram a ineficiência da Anac parte da responsabilidade pela anarquia reinante.

 

Sem dúvida o apoio recebido em Brasília deve ter reforçado a decisão de Zuanazzi de não renunciar ao cargo. Suas demissões dificilmente serão voluntárias, sendo mais provável que sejam promovidas pelo ministro da Defesa. Mas ele não foi feliz nas declarações algo primárias que fez aos representantes do Conselho Nacional de Turismo, que reúne 65 entidades privadas e públicas. Elas focaram pontos que pouco justificaram sua atuação. Por exemplo afirmou que o país perdeu US$ 1,5 bilhão em divisas por causa da saída da Varig do mercado internacional ; que no meio da crise ”uma companhia que tinha 73 aviões passou a operar com somente duas aeronaves”; que ”é uma heresia dizer que o aeroporto de Congonhas é inseguro” ; que “muitos dos que pedem o fechamento de Congonhas nunca leram as normas internacionais de aviação” e, em relação às criticas à Anac ocorridas logo após o acidente da Tam, ironizou dizendo “esta semana ocorreu um acidente de trem no Rio de Janeiro e, por acaso, alguém acusou a Agência Nacional do Transportes Terrestres ?” E concluiu : ”Ninguém vai me enxovalhar, ninguém vai dizer a hora em que eu tenho que sair, se eu tenho um mandato. Hoje sou uma pessoa que entende de aviação civil e me sinto apto a debater com qualquer um que tenha opinião contrária sobre o setor”.

 

Realmente, ele tem um mandato que lhe permite ficar no cargo por cinco anos, mas também não tem mais a confiança da indústria de transporte aéreos necessária para exercê-lo.

 

Até agora, o único artigo a seu favor apareceu no Jornal do Brasil, assinado por Cláudio Magnavita, o mesmo jornalista que em Brasília leu o texto que fez Zuanazzi chorar. Sob o título “O estilo caudilho de Nelson Jobim” o autor atribui ao ministro da Defesa a tentativa de “implodir a Anac ou subordiná-la de forma servil à sua pasta” e critica “a forma truculenta com que o ministro vem tratando os diretores da Anac, todos com currículos e especializações”, entre os quais “quem destoou sempre deste colegiado foi Denise Abreu. por seu gênio forte e uma rispidez que lhe trouxe os primeiros desgastes púbicos”.

 

Comparando, num contexto político mais amplo, a defesa genérica à Anac apresentada no artigo de Cláudio Magnavita, com as pífias declarações de Zuanazzi em Brasília, parece evidente que mais uma vez faltou inspiração ao presidente da Agência. Aliás, careceu de argumentos adequados, para justificar os erros que lhe são imputados e sua permanência na Anac.

De fato, parece que seria necessário muito mais que “entender de aviação civil”, como ele afirmou, para dirigir os destinos dos transportes aéreos do país. Afinal, eles são parte de uma indústria mundial que, em 2006, arrecadou quase 500 bilhões de dólares de receitas. (Leia na rubrica Aero News o perfil de um dos maiores executivos desse setor).