MAIS HISTÓRIAS QUE O TEMPO LEVOU

CONTADAS POR UM EX DIRETOR DA VARIG

 

Em janeiro de 2003, Harro Fouquet, ex-diretor de Planejamento da Varig, escreveu um longo texto, sob o título “A recuperação e o fortalecimento da Varig são muito importantes para o país: eis algumas das razões”, por ele chamado de pró-memória.

Mas depois do leilão da Varig o titulo ficou anacrônico. Atualmente, apenas o valor histórico das lembranças reunidas sob dez capítulos ainda permanece, pois lamentavelmente as sugestões da época para “salvar” a empresa, expostas com competência, foram anuladas pelos sucessivos acontecimentos.

 

Recebemos as 26 páginas do pró-memória de São Paulo, enviadas pelo ex-presidente da aérea, Rubel Thomas, que ainda nos comunicou que existem mais trabalhos redigidos por ex-executivos da empresa, entre os quais alguns poderiam ser disponibilizados por Sergio Prates, mais um “ex” que com Harro Fouquet e poucos outros cumpriu até o fim suas obrigações com a Varig, cujos serviços de bordo havia elevado para níveis de qualidade raros na indústria, contribuindo positivamente ao prestígio da empresa.

 

Assim, mais fatos, considerações e revelações sobre a “pioneira” se acrescentam àqueles que o anônimo Plato nos remeteu (há mais um e-mail dele na rubrica Aero News de hoje), e foram parcialmente publicados pela Aeroconsult. Flash para serem incorporados na história que o filho de um ex-presidente da Varig estaria compilando, com o objetivo de contar a cronologia de ocorrências, detalhes e verdades do vasto mosaico que deverá ilustrar os quase 80 anos daquela que, até hoje, foi a maior e mais dinâmica companhia aérea do Brasil e da América do Sul.

 

Por sua permanente atualidade, escolhemos do “pró-memória” escrito por Harro Fouquet - 55 anos de atividade na indústria, dos quais 41 no Grupo Varig – a parte que ele dedica às “principais causas do endividamento do Varig”.

Esse texto será publicado em dois capítulos, dos quais o segundo focará os chamados “fatores negativos conjunturais”.

 

O autor observa inicialmente que o “elevado endividamento da companhia resultou das perdas acumuladas em sucessivos exercícios” causadas em sua maior parte “por uma serie de fatores adversos, inclusive de caráter conjuntural”. Como conseqüência direta, a partir do balanço de 2000, a empresa viu seu patrimônio líquido registrar valores negativos. Entre “os motivos mais relevantes” das perdas sofridas pela Varig, relacionados a seguir, Fouquet coloca em primeiro lugar a “insuficiência tarifária doméstica”, causadora “dos “danos provavelmente mais contundentes já infligidos a empresas aéreas brasileiras nas últimas décadas”.

Ele escreve “O Decreto n° 91.149 de 14 de março de 1965 anulou, na prática, a política da realidade tarifária até então aplicada com sucesso pelo Ministério da Aeronáutica. Com a centralização do controle das tarifas de todos os serviços públicos na aérea econômica do governo, as tarifas aéreas passaram a ser reajustada sempre após e em níveis muito inferiores aos resultantes do agravamento dos custos. Portanto, as compensações autorizadas eram totalmente insuficientes para manter o equilíbrio econômico-financeiro dos contratos de concessão. Levantamento destinado a quantificar as perdas de receita conseqüentes da “prática da insuficiência tarifária” no transporte aéreo doméstico entre 1965 e 1991 revelou, para o conjunto da indústria montante em cruzeiros equivalentes, a época, a 2,2 bilhões de dólares norte-americanos, dos quais 986 milhões atribuíveis à Varig e à Cruzeiro. A respectiva ação indenizatória está aguardando julgamento de recurso da União ao Superior Tribunal de Justiça, STJ. Com o reconhecimento judicial desse direito de indenização não estaria excluída possibilidade de uma reversão do patrimônio líquido da Varig, atualmente negativo, conforme já mencionado”.

 

Outras causas do endividamento reunidas pelo autor sob o título “Custo Brasil”, evidenciam o ônus que alguns de seus itens representaram na época para os custos da empresa, sem terem correspondentes em outras atividades econômicas e, na maioria dos casos, vigorando apenas no país.

Na ordem de importância Fouquet lista em primeiro lugar as dificuldades para obtenção de financiamentos externos, após a moratória declarada pelo Brasil em 1982, que impediu a Varig de obter nos EUA financiamentos para um total de cinco jumbos B-747-300. A única alternativa, aprovada por nossas autoridades, consistiu em contratar a operação com instituições do Japão, em ienes, moeda daquele país que em seguida se valorizou frente ao dólar norte-americano. Isso dobrou virtualmente o montante original devido pela Varig e inviabilizou o esquema de amortização. “As aeronaves foram desativadas e devolvidas no curso da reestruturação financeira de 1999, ocasião na qual permanecia ainda um saldo a pagar remanescente da ordem de US$ 250 milhões !”, enfatiza Fouquet.

 

Em seguida ele compara os percentuais da carga tributária incidente sobre a indústria do transporte aéreo, divulgados pelo Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias, SNEA, como segue: USA 7,5% ; Europa 16,0%, Brasil 35,0% . Além disso, acrescenta, “vem sendo praticada uma política altamente discriminatória” em relação aos preços e aos reajustes periódicos dos preços do querosene de aviação” o principal insumo do transporte aéreo, que responde por cerca de 20% de seus custos”, tornando o combustível “consumido pelas empresas aéreas brasileiras cada vez mais caro em relação aos demais derivados de petróleo”. De fato o querosene de aviação, segundo o SNEA, teve aumentos cumulativos de preços de 834,85% desde janeiro 1999 e de 136,05% desde janeiro 2002, contra respectivamente 314,96% e 46,28% da gasolina automotiva e 317,05% e 57,98% do óleo Diesel.

 

Quarto integrante do “Custo Brasil” é o “ATAERO”, ou seja uma sobretaxa de 50% que com a promulgação da Lei nº 7.920 de 12 de dezembro de 1989 passou a onerar as tarifas aeroportuárias e de navegação no Brasil. “Sua cobrança tem sido fortemente contestada” escreve Fouquet e acrescenta comentário da “Review of Airport Charges 2001” segundo o qual “o Aeroporto Internacional de São Paulo aparece como o terceiro mais caro (após Osaka e Tóquio) na aplicação de taxas aeroportuárias, dentro do universo dos 50 principais aeroportos internacionais do mundo”. (Continua e conclui no próximo capitulo)