OUTRAS HISTÓRIAS QUE O TEMPO LEVOU

(3º CAPÍTULO)

Berta nunca brincou em serviço. Em tempo de paz ou quando estourou o último conflito mundial, ele sempre se manteve vigilante, dinâmico, audaz e ganhou a sua luta continua para engrandecer a Varig. Assim,da Lagoa dos Patos chegou até N.Y.

 

Fusões e confusões antes e depois da guerra

 

No Brasil, com o advento da II Guerra Mundial, todas as empresas que operassem com qualquer equipamento fabricado na Alemanha, e aviões não eram exceções, passaram a sofrer com a falta de peças para reposição. A Varig teve que se re-inventar e adquiriu um bimotor bi-plano de fabricação britânica DeHavilland DH89A Dragon Rapide, que foi batizado como “Chuí”, recebendo o prefixo PP-VAN.  Com essa aeronave foi realizado o primeiro vôo internacional, ligando Porto Alegre a Montevideo. Com capacidade para oito passageiros, o Chuí voou ostentando o Ícaro até 1945. Um exemplar da aeronave De Havilland DH89A está exposto no Museu Aeroespacial do Campo dos Afonsos no Rio de Janeiro, cedido pelo Museu da Varig de Porto Alegre.

Mais tarde, a chegada de oito Lockheed 10A Electra, com capacidade para oito passageiros, originalmente encomendados pela Braniff Airways e reaproveitados de sobra de guerra, certamente representou um marco para a empresa aérea, que em 1943 atravessava uma fase delicada, mas ainda muito longe do estágio “deficitário”, pelos padrões de hoje. Naquele ano de 1943 outras eram as preocupações da Europa, em meio às bombas da Luftwaffe e aos canhões soviéticos, enquanto o Brasil e toda a América Latina faziam parte de um continente tão distante, que os mapas cartográficos confundiam a localização dos vários países.

 

Por quase três anos os Lockheed 10-A Electra foram as aeronaves principais da empresa. Em 1946 chegariam os Douglas DC-3 sobrados da guerra.O Sr. Berta previu o crescimento dos transportes aéreos e não quis perder tempo.

Queria levar os aviões da Varig além-mar. E chegou a hora de pôr o vôo para os Estados Unidos na pasta dos projetos da empresa mais urgente.

 

A Varig aproveitou a experiência negativa que afetou a Cruzeiro do Sul, quando começou a planejar a vôo para Nova York. Bento Ribeiro Dantas, outro empreendedor da aviação comercial brasileira, realizara 30 vôos experimentais entre 1948 e 1949 para N.York e Washington, operando com quadrimotores Douglas DC-4.Queria realizar o projeto de ligar O Rio a Nova York, mas quando  procurou um subsídio federal lhe foi negado.   Sem o apoio do governo, o projeto foi arquivado. O Sr. Berta ficou na espreita e achou que não poderia perder a oportunidade, quando em 1950 o governo do recém empossado Getulio Vargas acenou com a possibilidade de incentivar o estabelecimento de uma rota comercial operada por aeronaves Brasileiras para a América do Norte. O também gaúcho Getulio Vargas aprovou a ligação entre o Brasil e os Estados Unidos, e a concessão foi dada a Varig em 1953. Foram adquiridos três quadrimotores Lockheed L-1049-G Super Constellation.

 

Foi em 2 de agosto de 1955 que a primeira aeronave Brasileira decolou para um vôo regular entre o Rio de Janeiro e New York, com escalas em Belém, Port of Spain, e Ciudad de Trujillo. Mais tarde a rota foi expandida para Buenos Aires. Na mesma época, o consórcio Real/Aerovias iniciou vôos ligando Buenos Aires, São Paulo a Miami e Los Angeles, iniciando uma acirrada competição com a Varig. A Real oferecia tarifas incrivelmente convidativas, bem abaixo das tarifas publicadas pela já operante IATA. Foi quando o Sr. Berta teve a idéia de lançar algo que o mercado iria aplaudir e coroar como uma grande estratégia de marketing, palavra ainda desconhecida no vocabulário de antanho.

 

Ele decidiu dar ênfase especial, importância máxima, às relações públicas – o que era algo inexistente à época. Mais uma vez, o Sr. Ruben Berta provou ser um pioneiro e inovador.Na época não se falava em otimização de resultados; as empresas não eram  “ágeis” ou “magras”, tampouco falava-se em  “clientes diferenciados”.Os computadores eram objetos de ficção cientifica e chamados de “cérebros eletrônicos”, e um jato intercontinental era operado por dois comandantes, dois co-pilotos, dois mecânicos de vôo, dois navegadores e dois rádio telegrafistas. Na época as reservas de passagens eram anotadas à lápis em grandes cartolinas chamadas de “cartas de vôo”, não havia lugar para o romantismo. Havia senão, bastante trabalho, muito árduo, contínuo e persistente.  .

Sem nada de “romântico” em suas atitudes, o Sr. Berta, para quem o conheceu,era simplesmente portador de tenacidade empreendedora, personalidade estóica, agressividade avassaladora, e muita confiança naquilo que fazia.

 

A grande dor de cabeça de herdar e integrar um inventário de aeronaves de difícil manutenção como os Convair 990-A, Convair 340, 440, Douglas DC-8, DC-6B, Electra II, assim como de absorver funcionários de cultura muito heterogênea e agrega-los à folha de pagamento, seria impraticável nos dias de hoje. A Varig do Sr. Berta herdou das congêneres um inventário que somavam 220 aeronaves, das quais 143 originárias do Consórcio Real/Aerovias e 77 que haviam integrado a frota da Panair, a grande maioria danificada ou em desuso. Algo incrível, impensável para a Varig de meados da década de 1960. (Continua no domingo 2 de dezembro)