DIVAGAÇÕES SOBRE A SAUDADE

 

Quando perguntamos a ex-variguianos o por que de sua saudade pela empresa, a maioria tem dificuldades para formular uma resposta esclarecedora. Aliás, deles, um bom número é incapaz de justificar a base desse seu sentimento. Saudade é difícil de identificar, localizada como está nas profundezas da alma. Ou melhor, segundo o dicionário Aurélio, por ser “lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las”.

 

Sem duvida, muitas pessoas, inclusive usuários, tem saudade da Varig, obedecendo a um sentimento íntimo, cuja motivação tem origem numa, ou mais, das múltiplas variáveis que gravaram suas lembranças. A saudade expressa, em particular, o desejo ou a esperança de um retorno, apesar do individuo ter consciência de se tratar de um sentimento praticamente sem possibilidade de ver realizado, num futuro próximo. Mas nem por isso desiste, pois na mente humana, certa sensações são permanentes. Elas se ligam a fatos, coisas ou pessoas, e em volta deles alimentam recordações, às vezes distorcidas, que os fazem desejar sua volta. Com freqüência, fatos idealizados têm uma consistência real bem mais modesta.

 

Depois da longa premissa, é lícito generalizar, afirmando que as histórias em volta da saudade que alguns ou muitos ex funcionários de companhias aéreas ainda sentem pelas “falecidas”, são provavelmente fictícias. Algo como composições mentais, que se formaram em volta de imagens, pessoas ou acontecimentos que, quando projetados no tempo presente, só apresentam o seu lado mais positivo. Em muitos casos a saudade de pessoas, de convivência, ou de ambientes, se baseia em lembranças de contatos, até breves, aos quais se confere importância maior daquela que realmente tiveram numa fase da vida. Outras vezes, são apenas imagens captadas pela memória, na qual se renovam e eternizam, quais a saudade da pátria, da terra nativa, de parentes e de amigos. E até de credos políticos.

 

Numa época em que tudo é objeto de pesquisa, adultos ou idosos com saudade de empresas aéreas nas quais trabalharam, da Real-Aerovias, à Panair do Brasil, à Vasp, à Cruzeiros do Sul ou à Transbrasil e à Varig velha, entre as maiores, deveriam ser questionados. Deveriam contar aos investigadores as razões de tanta dedicação post-mortem. Haveria a probabilidade de que muitos resultados seriam negativos, com explicações carecendo de sustância efetiva. Seriam apenas descrições romantizadas de fatos ou circunstâncias valorizadas além de sua real consistência. E, muitas vezes, os enfoques estariam até em contraste com a imagem geral atribuída a essas pessoas ou a esses acontecimentos nas páginas de história das respectivas empresas. Há muitos anjos, ou demônios, que dependem da visão de quem os cria, do papel que voluntária ou involuntariamente tiveram nas vidas de quem os transformou em ícones.

 

A sensação da ausência temporal e a comparação com a situação atual, são com certeza as grandes motivadoras da saudade, aguda quando por prazo determinado, às vezes insustentável quando a perda parece permanente. E´ um processo pelo qual, se tratando de ambientes de trabalho ou de pessoas de convivência, quando cessam determinadas sensações positivas elas passam a ser recriadas na memória, onde assumem uma consistência maior daquela real. No caso específico das aéreas desaparecidas, falar de saudade é demais: no máximo elas contribuíram a alimentar sonhos, nas asas de suas atividades criadoras de fantasias, por serem aquelas que mais aproximam os seres humanos do céu.  

 

Em todo caso, é triste admitir que a seqüência mental que nos leva à saudade é um consolo estritamente pessoal, que vem somente depois que algo querido desapareceu. Quando algo que já foi e nós agradou, não existe mais. Por isso é inaceitável admitir a existência de uma saudade coletiva, que possa expressar um mesmo sentimento, quando aplicada a grupos que representam pessoas de educação, idade, credo diferentes. 

 

Eis que, avançando do genérico para o específico, poderia ser afirmado que esse fanatismo saudosista que se encontra por aí, entre ex funcionários da Panair ou da Varig, sem dúvidas carece de provas para demonstrar ser representativo das melhores imagens que as respectivas empresas teriam deixado às pessoas que por elas trabalharam ou, até, aos viajantes que conheceram seus serviços.

 

 Mas não há a menor dúvida de que existem milhares de pessoas ainda sonhando com os DC-8 da Panair ou os 747 da Varig que voaram do Brasil para o mundo. Símbolos, como as duas aéreas foram, de um país dinâmico e orgulhoso. Um país que ainda se encontrava em fase de desenvolvimento, mas possuía aéreas à altura das mais celebradas do mundo. Símbolos bastante diferentes daqueles, frios e rentáveis representados pelos atuais donos de 737 e de Airbus, com suas low fares e, também, low performances.

 

De fato, uma motivação real de saudade seria comparar as duas épocas e constatar que as possantes do duopólio de hoje, estão enterrando a aviação nacional classe A. E apesar de sua rentabilidade e poder econômico, haveria ainda o consolo, ou a certeza, de que dificilmente algum dia, alguém as lembrará com saudade.