APVAR, UMA ASSOCIAÇÃO QUE JÁ ERA

 

Num longínquo 13 de março de 2002, um e-mail via “openlink” chegou ao computador do escrevente, dizendo que “Face às recentes publicações veiculadas no seu site, claramente tendenciosas... obrigo-me a solicitar encarecidamente que retire meu endereço eletrônico de sua lista de comunicações...”.

Desde aquela época nosso e-mail semanal dirigido ao comandante/presidente da Apvar, Associação dos Pilotos da Varig, que havia assinado o texto, foi suspenso. Mas sabemos que os associados não deixaram de ler nossos comentários. Vamos por etapas, cobrindo alguns episódios do relacionamento entre Aeroconsult e Apvar.  

Em 1995 e por vários anos, principalmente enquanto o Cmte. Gelson Dagmar Fochesato e o então co-piloto Miguel Dau ocuparam os cargos de presidente e vice-presidente da Associação, havia um relacionamento perfeito. De fato só poderíamos apoiar suas iniciativas, que visavam salvar a Varig da falência, dinamizando as ações da Apvar e lutando desde o segundo semestre de 1993 para alterar o rumo administrativo da aérea. Na época, a Varig estava reconhecidamente nas mãos de uma minoria supostamente orientada pela Fundação Ruben Berta, e havia acumulado nos últimos cinco anos uma série de resultados operacionais e financeiros negativos. No clima de crise e de incertezas a Apvar “agiu como um farol, polarizando gradualmente a atenção da maioria, assumindo posições de resistência, questionando o sistema de gerenciamento da empresa. Identificados com a atuação de sua Associação, 26 comandantes e mecânico de vôos, que atuavam como administradores da Diretoria de Operações da Varig, reagiram a uma circular do diretor que criticava as iniciativas da Apvar junto de autoridades, entidades privadas e do próprio Comitê Executivo da aérea e, em particular, os contatos com a imprensa, definidos como “tática de guerrilha” e de desestabilização. Esses contatos levaram os diretores da Associação até Brasília, onde conseguiram do então presidente da República, Itamar Franco, a suspensão de um empréstimo do Banco do Brasil à Varig, considerado como um “mero paliativo se não houver a efetiva participação dos funcionários da aérea na sua administração”. De fato a Varig estava se distanciando sempre mais das forças trabalhistas que haviam promovido sua ascensão.

Mas o apelo de Itamar para um entendimento produziu o milagre da assinatura de um acordo assinado pelo ministro do Trabalho, pelo presidente da aérea, Rubel Thomas, e pelos Sindicatos dos aeronautas e aeroviários. E o empréstimo saiu. Foi a abertura para a participação de funcionários no Conselho de Curadores e nas comissões a ele subordinadas. O entrosamento evitou uma greve geral da Varig, marcada para dezembro de 1994, na qual seriam reivindicados melhores salários e formado um bloqueio contra a perspectiva de mais demissões, que deveriam reduzir de 24.691 para 19 mil a força total de trabalho.

 

Mas as atitudes construtivas da Apvar mudaram quando foi eleito seu presidente o Cmte. Flávio Souza, ou seja o autor do e-mail que inicia este texto.Com ele se iniciou uma política claramente expansionista, cujo objetivo final não era mais a colaboração construtiva com a empresa aérea, mas sim a tomada de controle da Varig. Expressão evidente da intenção de desestabilizar a aérea foi a chamada operação Ação Industrial, que foi uma forma de greve não declarada com a qual a Apvar pretendeu, supostamente, reformular a FRB e bloquear os abusos que atribuía à Varig. Na época, o artigo que enfureceu o presidente da associação, afirmava que a iniciativa havia sido orquestrada “pelo míni Pentágono da Av. Franklin Roosevelt” utilizando procedimentos formalmente legais e determinando “ações precisas como bombas inteligentes” para devolver “dignidade” à classe dos pilotos, desconhecendo as mudanças que haviam ocorrido recentemente no Estatuto da Fundação, com a participação de representantes da Apvar. A “não colaboração” que, no texto do “Manual de Ação Industrial” recomendava evitar intervenções para acelerar procedimentos a serem executados pelos pilotos no aeroporto, nada mais era de que uma reedição da “operação tartaruga", ou “operação padrão”. Ela serviu somente para acirrar os ânimos e aumentar, com o passar das semanas, os motivos de contrastes com a FRB e com a Varig, sem motivar adequadamente os pilotos obrigados a participar da “operação”. De sua parte, como já havia decidido, a FRB se apressou em convocar uma Assembléia Geral Extraordinária, na qual anunciou sua intenção de ceder parte de seus direitos sobre a Varig ao grupo que viesse a adquirir as novas ações da aérea, podendo ficar com menos de 50% de participação “mas mantendo o controle da gestão”. Propostas e boas intenções que o tempo levou.

 

E chegaram os dias da venda da empresa, depois de sua adesão à nova forma de liquidação extra-judicial, estudada pelo governo para evitar as falências. E as intrigas continuaram e continuam, como escreveu semana passada numa longa carta o Cmte Ayrton Franzoni que naquela época, como associado da Apvar, foi coordenador de uma Comissão permanente cujo objetivo era aparar as divergências que, desta vez, separavam as presidências da Apvar e do Aerus, reivindicando uma “gestão compartilhada” no fundo de aposentadoria. O título do texto do Cmte Franzoni diz tudo: ”Desligamento da Apvar” e ele é dirigido aos “caros quatro ex-presidentes da associação, Maurício, Valdecir, Escobar e Fochesato”, escrevendo “Hoje pedi meu desligamento da Apvar". Há tempos vinha pensando em me afastar do quadro associativo.

Primeiro porque acho que esta Associação não tem mais nada a ver com aquela a quem dedicamos, como presidentes, muitas horas de nosso tempo e de nossas famílias. Segundo, porque as recentes modificações estatutárias vieram descaracterizá-la ainda mais. Terceiro, porque a maneira como vem sendo dirigida não condiz absolutamente com nada daquilo que praticávamos. Mas a gota d´ água foi a série de agressões verbais e mentiras que estão divulgando pela internet, com relação à eleição do SNA, num nível de baixaria difícil de acreditar. Nossos colegas porque comparecem às passeatas são chamados de idiotas. Parece que bateu o desespero no grupo do TGV que se instalou lá, na sede da nossa Associação.”

Essa é somente a parte inicial de um texto que tem o valor de um documento, pois vem de um ex-presidente e conta episódios que poucos conhecem. Vale a pena ler sua continuação em nosso blogger, na rubrica Aero News.