Aspectos da economia vistos por um leigo

AVIAÇÃO E TURISMO, OS PRIMOS POBRES DO PIB

 

O ano está próximo a se encerrar e chovem estatísticas que indicam os progressos da economia do país. O PIB superou 5%, a gente compra mais, a indústria de transformação cresceu, a oferta aumentou, o consumo familiar também. Em 2006, de fato, o crescimento do valor monetário do conjunto de bens e serviços produzidos no país superou as expectativas.

 

Dezenas de setores econômicos produziram e ganharam mais e centenas de milhares de brasileiros conseguiram adquirir produtos “nunca antes experimentados”. Dizem que 80% dessas compras foram feitas com cartões de crédito e que milhões de dívidas foram parceladas. Só neste mês de dezembro, deverão totalizar mais de 40 bilhões de reais. O conto do crédito fácil, contribuiu a esquentar a demanda, a engordar as estatísticas oficiais da produção industrial, a enriquecer os donos das redes de cartões. Mas é apenas o começo da história. Não avalia quanto essas dívidas, mês após mês, irão aumentar os compromissos de pagamentos das famílias, reduzindo suas disponibilidades líquidas para as despesas tradicionais.

 

E´ um dos mistérios da economia que o leigo redator destas notas não entende. Porque um PIB  indicando o crescimento  do valor da  produção de bens e serviços do país , produz  resultados tão modestos na grande maioria dos balanços familiares ?  Em geral, o que é bom para a economia, chega aos trabalhadores em doses homeopáticas, engordando apenas uma minoria e as estatísticas nacionais.

 

Sem contar os muitos setores que continuam em crise, primos pobres de um PIB em expansão. Um deles, o dos transportes aéreos, que ocupa destacadas posições na economia de países desenvolvidos, aqui esteve apagado em 2007, revelando fraquezas estruturais nunca antes imaginadas.

A ex-Varig, agora VRG, não conseguiu alcançar nem de longe os índices de produtividade da década passada, apesar do alto patrocínio da Gol, sua dona e promotora. Aliás a Gol também viu suas receitas e seus lucros caírem e parece algo perdida diante dos novos compromissos operacionais da área internacional .Sua congênere, a Tam, ainda em crise não confessada, também viu caírem receitas e lucros e ainda não descobriu a maneira mais racional para fazer sua frota milionária produzir o que poderia . Para não falar da presunçosa BRA, que iludiu investidores estrangeiros e nacionais para voar nas rotas da falência, amparada pelo carinho da Agência Nacional de Aviação Civil de Milton Zuanazzi. E haveria ainda a OceanAir, que no Brasil representa um dos braços do grupo capitalista que há anos mantêm operando a Avianca, sua irmã de sangue e de mediocridade. Mas não lhe faltam dinheiro, nem ambições, razões pelas quais poderá no médio prazo se inserir no quarteto de ponta da aviação nacional.

 

De fato, a aviação brasileira, uma indústria dinâmica, produtora de serviços, andou esquecida pelas autoridades e acumulando fraudes até a falência da Varig. A esse ponto da história, alguém descobriu que a prestigiosa empresa aérea não poderia ser ajudada a sair da crise investindo nela um único centavo do dinheiro do contribuinte. Não era ético, apesar de existirem notórios e freqüentes casos contrários. Depois aconteceram os acidentes que vitimaram 400 pessoas e logo em seguida, após décadas de inércia, se descobriu que os aeroportos escondiam sob luxuosa aparência grande deficiências estruturais e que, também nesse setor, parte das taxas pagas pelos viajantes havia tomado caminhos obscuros. E que a segurança nos céus era hipotética, pois os controladores não eram deuses e não podiam gerenciar até 20 vôos ao mesmo tempo, além de serem mal pagos e não treinados adequadamente no uso do idioma inglês. Pergunta ingênua do leigo : os prejuízos causados por tudo isso não deveriam ser descontados do PIB ?

 

Ainda mais que, na última década, as aéreas nacionais viram sua participação se reduzir de ano para ano no segmento internacional, o mais valioso em receitas, e agora elas operam apenas amostras desse tráfego, sem alguma proteção governamental, como se a atividade, que exige bilhões de investimentos, pouco significasse para a economia do País.

 

Enquanto isso os novos ricos, participantes ativos do novo PIB, esbanjam dólares desvalorizados e caríssimos euros pelo mundo afora, sem que o país consiga pelo menos aquela reciprocidade de gastos estrangeiros no país que poderia equilibrar a balança do turismo. Nesse contexto, não se entende o papel do Ministério do Turismo, aparentemente satisfeito pelo fato que os brasileiros gastam lá fora muito mais do que os estrangeiros no país. Aliás, de passagem, parece que ninguém reparou que o número dos visitantes ficou estagnado na casa dos 5 milhões por ano, número esse inconcebível para um país/continente como o Brasil. Analistas dizem que os responsáveis da promoção do país no exterior deveriam enrubescer, olhando as estatísticas da OMT e fazendo algumas comparações elementares do fluxo turístico nacional com aquele de uma dezena de outros destinos, cada um dos quais oferece, talvez, 15% das atrações potenciais deste país.

 

Tudo isso não entra no PIB. Assim como ninguém observa que, aos poucos, os chineses estão tomando conta do mercado nacional. Começaram com peças de vestuário masculino, relógios, sapatos, bugigangas, mas já avançam em setores mais nobres, como os de máquinas industriais ou da informática, cujos preços apesar de taxados continuam altamente competitivos. Em breve virão até carros baratos.

Uma última reflexão, daquelas que deixam os economistas de verdade de cabelos brancos. Pensando bem, os consumidores do mundo inteiro deveriam agradecer aos chineses por terem, com seus preços baixos, fruto do suor mal pago de seus operários, posto um freio à avidez global capitalista, obrigada pela concorrência dos “amarelos” a controlar lucros, aumentar a produção e a aperfeiçoar a qualidade de seus produtos. E, num curioso jogo global, até caberia aos chineses, mestres e recordistas em aumentos do PIB, o mérito de ter incentivado, sem querer, o crescimento do nosso.