O pessimismo dos técnicos do BNDES parece ignorar que a inteira indústria de transportes aéreos nacionais está tentando acertar seus ponteiros, para evoluir gradualmente na direção da melhoria operacional e da rentabilidade.
Antes de examinar algumas evidências do balanço da Varig, deve ser assinalado que os enfoques do relatório do BNDES intitulado “O Setor Aéreo Brasileiro, estudo e diagnóstico complementar” (cujas conclusões foram em parte adiantadas pelo Informativo 49), elaborado sem todos os dados estatísticos do último trimestre de 2001, tem provocado reações contrárias de parte das empresas aéreas atingidas, se refletindo negativamente no mercado acionário.
Sem ter chegado a conclusões novas
ou originais, o paper do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social peca por ignorar os progressos conseguidos no ano passado pela Varig e
pela Vasp. Em particular o relatório parece não atribuir importância à redução
das dívidas das Varig e às iniciativas da FRB (Fundação Ruben Berta) para
diversificar as fontes de receita e capitalizar a empresa aérea. Ao mesmo tempo
não considera os efeitos da saída da Vasp das rotas internacionais e da
devolução de numerosas aeronaves, que melhoraram bastante sua posição no setor
doméstico.
De outro lado, o relatório parece
não utilizar os mesmos parâmetros em relação aos balanços das empresas, pois
enquanto é motivo de preocupação o fato das dividas financeiras da Varig e Vasp
estarem acima de R$ 2 bilhões, não avalia o impacto que terá nas atividades da
TAM, a médio prazo, a sua divida financeira de R$ 1,5 bilhão, quase totalmente
em moeda estrangeira. Assim como não está sendo considerado o fato que a Varig
produziu, com um número menor de aeronaves, uma receita operacional líquida
três vezes maior que aquela da TAM, e que essa empresa foi obrigada pela
conjuntura a se retirar de duas rotas internacionais, abrindo espaço às
congêneres européias e sofrendo perdas financeiras e de prestígio, cujos
efeitos estão onerando também suas atividades do primeiro trimestre deste ano.
Por isso não estaria correspondendo à realidade a afirmação de que a TAM nunca
teria registrado resultados negativos nas rotas internacionais.
Quanto à dúvida levantada pelo
BNDES em relação à transparência dos balanços das empresas aéreas, que
aplicariam “práticas não usuais” de contabilidade, visando reduzir o impacto
negativo de certos resultados, elas estariam exigindo esclarecimentos de parte
das companhias e da Comissão de Valores Mobiliários (CVB) que aprova os
balanços, se os da Arthur Andersen (em decadência após o escândalo Enron,nos
EUA) não forem suficientes.
Analisando agora alguns aspectos
essenciais do balanço da Varig, deve ser assinalado que gerou surpresa o
montante do prejuízo líquido negativo (R$ 480,810 milhões), muito inferior às
previsões feitas após que o primeiro semestre havia sido encerrado pela empresa
com mais de R$ 600 milhões no vermelho. Essa melhoria acentuada da performance
da Varig não decorreu somente do aumento da demanda nas rotas domésticas, pois
após 11 de setembro houve perdas conspícuas no setor internacional, nem da
relativa revalorização do real frente ao dólar, que reduziu o ônus dos custos
ligados às moedas estrangeiras, mas também de outros fatores, que não estão
tendo a devida ênfase.
O primeiro deles è o forçado
redimensionamento da Varig, em números de aeronaves, de freqüências e de
funcionários. A devolução de aviões e o cancelamento de vôos otimizaram a
oferta de assentos, reduziram o custo dos leasings e elevaram o aproveitamento nas rotas internacionais,
enquanto baixava o índice médio do break-even. Nesse contexto, com uma
receita de R$ 6,068 bilhões, o resultado operacional negativo de R$ 868,810
milhões foi frustrante, apesar de ter sido reduzido de R$ 224,2 milhões (resultado
não operacional) com o crédito decorrente da devolução de seis aeronaves à
Boeing, que voltaram à frota da Varig sob a forma de aluguel (sale and
lease-back). A operação permitiu também de abater US$ 370 milhões do
montante de US$ 1,2 bilhão das dívidas da empresa.
Basicamente, o balanço evidencia a exigência de: 1) uma rápida recapitalização, essencial para reduzir o montante das dívidas (cerca de US$ 900 milhões) e para melhorar o valor do patrimônio líquido (hoje negativo em R$ 523,1 milhões) e, 2) o aproveitamento do atual câmbio mais favorável para minimizar este ano os prejuízos financeiros, que em 2001 totalizaram R$ 575,5 milhões.
Mas tem mais: segundo analistas que não concordam com o pessimismo do relatório do BNDES, a existência desses problemas não diminui a importância da melhoria ocorrida no último semestre de 2001, no balanço da empresa. Por isso a Varig deveria: a) manter sob controle a sua oferta de assentos; b) concentrar seus esforços operacionais nos dias da semana mais solicitados; c) utilizar aeronaves adequadas ao potencial de cada rota; d) evitar novos investimentos em aeronaves mais modernas cujas vantagens reais, a médio prazo, são menores das propaladas; e) consolidar uma nova imagem de empresa eficiente, moderna e ao mesmo tempo tradicional. E em particular, acrescentamos, esquecer rivalidades internas e megalomanias, lembrando o fim melancólico das pretensões internacionais da Vasp e da Transbrasil e a recente frustração da TAM, quando pretendeu crescer e se impor oferecendo a qualidade de seus serviços também nas rotas internacionais.
Nos dias de hoje, quando o fator preço domina a opção dos usuários, são os vôos lotados que fazem a diferença, e se ainda há algum espaço para as empresas que acreditam na qualidade de serviços, isso é valido sob a condição de que não esqueçam que a rentabilidade é o objetivo principal de suas atividades.